Artigo


Só resta a política

Postado: 29 de Maio de 2017


No livro V, dedicado exclusivamente à Justiça, da obra Ética a Nicômaco, que deveria ser leitura obrigatória para todo homem público, por aprofundar a discussão a respeito de noções intrínsecas ao ser humano, como virtude, ética, honra, moral, temperança, glória e outras, Aristóteles afirma que até mesmo os mais injustos, ímprobos e déspotas dos homens tentam parecer exatamente o contrário, perante os olhos da polis, da cidade, da sociedade.

Como seria bom, tantos séculos depois, saber a opinião do sábio filósofo grego sobre a conjuntura política brasileira, na qual os homens – como ele próprio disse, eternamente tentados a se inclinarem à injustiça e a maldade, na desesperada tentativa de fugirem do fracasso e encontrarem a felicidade – têm praticado e admitido, publicamente, excessos e injustiças para impor vontades e interesses. Inclusive, e principalmente, os agentes públicos. Sem a mínima vergonha. 

Com certeza, seria interessante saber como o grande Aristóteles analisaria o estágio em que chegou a humanidade. Como a tal civilização pautada no mercado, no lucro, na reprodução obsessiva do capital, que ele não conviveu, alterou drasticamente as relações humanas, nas esferas pública e privada. 

O que mete medo, e tanto preocupa, devido a vulnerabilidade da infantil democracia brasileira, é o fato de que os injustos, os déspotas e os ímprobos se apoderaram das instituições e não têm tido a menor inibição ou receio de usá-las para obter vantagens que não se limitam à política, pois visam também lucros bem generosos no plano econômico. Tudo combinado com a destruição da mínima rede de proteção, não apenas ao trabalhador, mas aos desafortunados, os infelizes nas loterias genética e social. É a “modernidade” do neoliberalismo.

Quando as instituições, fundamentais para o equilíbrio político e institucional da República, da Federação, da democracia, e que existem justamente para conter os excessos dos homens, passam a chancelar as injustiças, as excepcionalidades, os abusos, as improbidades e o arrepio à lei, aí o Estado entra em colapso total. É o caos generalizado. Pior ainda, o esfacelamento da unidade nacional. A nação se desintegra.

Em tempos de globalização, de hegemonia feroz do sistema financeiro e neoliberalismo fundamentalista, o desmonte do Estado só favorece o grande capital. Os que vendem a mão de obra nada ganham. Seja na visão contratualista de Thomas Hobbes ou na concepção de classe de Karl Marx, o Estado ainda é indispensável. Claro, pautado no respeito às leis, no regime democrático e dentro do sagrado princípio de que soberano é o povo. O que, evidentemente, não é o caso do Brasil de hoje, quando imperam o arbítrio e a exceção.

Por certo, se pudesse retornar, Aristóteles lembraria que a política é o motor da história. Assim, é possível concluir que a resistência popular é o caminho para reconstruir a democracia e resgatar a noção de nação. O Brasil tem jeito, sim, mas a saída é política.

* Rogaciano Medeiros é jornalista

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