Artigo


Brasil encantado

Postado: 08 de Novembro de 2017


Por Claudia de Medeiros Lima *

Nunca esqueço a célebre frase de um professor francês que disse: “o brasileiro é um povo mágico”. Hoje mais do que nunca consigo compreender o que ele quis dizer, o brasileiro é um povo que acredita que a solução do país está em algum lugar secreto, acessado por uma única pessoa ou grupo de pessoas que vai salvar a política, a economia, a educação, a cultura, o que quer que seja.

Hoje, em São Paulo, um grupo de manifestantes queimam uma boneca representando a filósofa Judith Butler para demonstrar a aversão às questões de gênero. Não me espantaria saber que dentre aqueles manifestantes, a maioria senão todos, sequer leu uma única linha sobre a obra da autora. Mas pra quê, né? Falou em gênero é coisa da esquerda, do diabo, de comunista, de baderneiro, mas nunca de pessoas que lutam por respeito, equidade, democracia e dignidade. 

Queimar a boneca como se queima o judas no sábado de aleluia talvez demonstre mais que uma expressão folclórica, com todo o respeito à nossa cultura. Queimar o judas é expurgar os pecados. Queimar a boneca “filósofa” é queimar o pensamento crítico, a ciência, o diálogo.

Queimar a boneca é dar uma chance às princesas do Brasil, pensam os moralistas. As princesas que vivem nas favelas com fome, sem saneamento básico, sem escola, sem emprego. Princesas que não tem o direito de ser respeitadas por serem mulheres, que são estupradas, vilipendiadas, mortas pelo machismo que impera no país. São essas as princesas brasileiras? Porque é nessa realidade que se enquadra a maioria de nós. Aliás é bom lembrar que princesas são sempre preteridas aos príncipes e sempre subservientes a algum rei.

Combatem o feminismo sem saber que vivemos hoje muitas conquistas desse movimento. Ou será que pensam que a mulher sempre trabalhou fora, sempre teve direito ao voto, sempre teve direito a educação? Quantas mulheres assumem hoje a liderança e o sustento das famílias? Sou fruto de uma delas, que nunca esperou por um príncipe encantado, mas arregaçou as mangas e foi à luta. Mulher não precisa ser princesa para se afirmar mulher!

É...  o Brasil é mágico e tem um povo mágico. Luto pelo dia em que essa mágica vai se descortinar dos olhos dos oprimidos, porque somente estes é que sustentam nas costas e com o suor do rosto fazem valer a fantasia de um reino de reis, príncipes e princesas, títulos que nunca os pertenceu e nunca os pertencerá. Pelo menos, não neste mundo!

Claudia de Medeiros Lima é Mulher, não é princesa. É professora do IFCE

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