Entrevistas


Não há democracia no Brasil

Seletividade no Judiciário, ilegalidades na Lava Jato, Congresso ligado aos patrões e entreguismo do país ao capital financeiro. É assim que vê a atual conjuntura brasileira o senador Roberto Requião (PMDB-PR) em entrevista exclusiva ao jornal O Bancário. Requião não enxerga mais a democracia no Brasil. “A soberania nacional está arranhada”. 

Por Rafael Barreto

O Bancário: É possível afirmar que o Brasil vive uma democracia?
Roberto Requião:
Não. A democracia está sofrendo reveses no Brasil e no mundo inteiro. Como sistema político, sistema decisório. Quando 83% da população diz que não quer a reforma trabalhista e o Congresso vota e o presidente sanciona, alguma coisa está errada.

O Bancário: O ativismo do Judiciário e do Ministério Público atenta contra o Estado de direito?
RR:
Eu sou um fã da Lava Jato. Eu fui quem mais elogiou a ação quando começou. Mas a partir de um determinado momento, ela passou a sair dos trilhos da legalidade. Eu quero que continue. Não quero que acabe. Mas ela tem de respeitar a lei e não pode ser seletiva. Ela não pode ser utilizada politicamente. Ela não pode soltar um e mandar prender outro pelas mesmas razões um dia depois do outro. A meu ver, ela está sendo utilizada politicamente ao longo do processo. O Sérgio Moro, que é um juiz do Paraná, correto, que conheço há muito tempo, vai uma vez por mês nos Estados Unidos? Fazer o quê? Visitar a Disneylândia é que não é.

O Bancário: A Lava Jato fez mais bem ou mal ao Brasil atualmente?
RR:
A Lava Jato foi fundamental para investigar a corrupção política. Mas, hoje, ela privilegia interesses. Por exemplo, você acredita que, nesse processo de corrupção nacional, não tem nenhuma empresa estrangeira envolvida? Empresas que notoriamente são as que corrompem o mundo em todos os países. Você acredita que nenhum juiz, nenhum promotor, tenha se corrompido nesse processo? Só políticos progressistas de esquerda, de direita não? É evidente que ela foi conduzida de fora para dentro.

O Bancário: Quais as contas que o Legislativo, o STF e o Ministério Público têm de prestar à História do Brasil?
RR:
É uma visão seletiva da Justiça, a insistência em punir os setores mais progressistas. Porque a luta contra a corrupção é boa, mas ela tinha que ser absoluta, não seletiva. O Lula foi condenado, o Aécio está solto, o Temer blindado e a soberania arranhada.

O Bancário: Em uma das suas intervenções no Senado, o senhor disse que era preciso exorcizar a reforma trabalhista. E agora? 
RR:
Vamos começar um exorcismo, mas agora do governo. Este governo é um instrumento da política de globalização financeira a serviço do capital financeiro, nem é do capital produtivo. Há uma reação possível, que é a aliança entre o trabalho e o capital produtivo. Nós temos de estabelecer essa aliança para derrubar o governo, não pontos específicos das reformas. Agora, o comportamento do Parlamento é inimaginável. A reforma trabalhista ter 50 votos a favor de senadores é a representação do vazio na representatividade do trabalhador. Em 1917, houve a maior greve trabalhista do Brasil. E essa greve queria jornada de oito horas, descanso semanal remunerado, férias, Fundo de Garantia, aposentadoria e parou 70% da força de trabalho do país. E em um dado momento, os representantes das fábricas também aderiram. Fecharam as fábricas, demitiram todo mundo e depois recontrataram. E a partir daí, começou os avanços trabalhistas no Brasil, que acabaram agora com a reforma trabalhista. Não há mais direito do trabalhador no Brasil. É o negociado sobre o legislado, o trabalho intermitente e a pejotização. É o liberalismo econômico. Querem entregar o país para o grande capital.

 

O Bancário: E a reforma da Previdência?
RR:
A reforma da Previdência não passa, ela já subiu no telhado. A reforma trabalhista foi aprovada na Câmara por 200 e poucos votos. Destes, 198 eram pessoas eram ligadas aos patrões. Parlamentares que não se identificam com o trabalhador. Olham o trabalhador como objeto. Eles deram seus votos com ódio, com declarações pesadas. Eles queriam acabar com o direito dos trabalhadores. E esse é o Congresso Nacional. E isso ocorre, dentre outras coisas, porque nós estamos em um sistema eleitoral que quem se elege é quem tem dinheiro. Todos os partidos procuram candidatos que tenham um financiamento empresarial forte ou que têm dinheiro para fazer campanha. Então, são os patrões, com seus interesses específicos, que bolaram o plano para assumir postos na Câmara e no Senado Federal. São os donos do dinheiro. Agora, quando se vai tratar da reforma da aposentadoria, já há uma identidade. Porque até os empresários que tem horror aos trabalhadores e as entidades de classe, querem se aposentar. Ele se identifica com quem vai perder a aposentadoria, porque ele também quer se aposentar. Então, isso me dá uma certa segurança de que a reforma da Previdência não passa.

O Bancário: É possível, na conjuntura atual, derrotar o projeto neoliberal?
RR:
Claro que é. Nós sempre dizemos. Tudo vai acabar bem. Quando está muito ruim, é que ainda não acabou. Nós estamos em um processo histórico e o Brasil vai superar isso.

O Bancário: Qual é a origem de toda a desordem institucional que o Brasil atravessa?
RR:
A origem é a falta de partido organizado, falta de um projeto nacional, falta de um sistema político que não privilegie apenas o dinheiro. 

O Bancário: A República foi capturada por uma burocracia estatal de direita?
RR:
Não, ela foi capturada pelo capital financeiro.

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