Entrevistas


Mais rigor no apoio a Lula

 
*Por Rogaciano Medeiros
 
Membro do Comitê Central do PCdoB, único partido de esquerda que nunca rompeu a aliança com o PT, Haroldo Lima admite que a prioridade é o apoio ao ex-presidente Lula, se ele for confirmado como candidato. Mas, salienta a necessidade da adoção de princípios programáticos mais rigorosos, para evitar a repetição de erros e equívocos.
Preso político durante a ditadura civil militar (1964-1985), deputado federal por quatro mandatos e presidente da ANP (Agência Nacional de Petróleo) justamente quando foi descoberto o pré-sal, ele teme a fragmentação das esquerdas e admite a possibilidade de o PCdoB também lançar candidato próprio à presidência da República na eleição do próximo ano.
 
O Bancário: A democracia resiste até 2018?
 
Haroldo Lima: Eu acho que resiste, sim. Está enfrentando dificuldades e ameaças. Mas, a força do povo é bem maior do que essas ameaças. No momento o nosso povo está um pouco desorganizado, perplexo. Aconteceu no país um golpe de Estado em 2016. Tirou-se uma presidenta que tinha sido eleita de forma direta pelo brasileiro, que estava fazendo um governo com as suas debilidades, com as suas imperfeições, mas era um governo sério, um governo legítimo. E botaram no lugar uma quadrilha de bandidos. Isso é uma coisa chocante. E como muita gente foi às ruas naquele período, motivada pela Rede Globo de Televisão, pela grande mídia brasileira para tirar a Dilma, quando eles conseguiram tirar e quando descobriram que colocaram no lugar dela uma quadrilha de bandidos, essa turma que apoiou o “impeachment” ficou completamente desmoralizada.
 
O Bancário: Será que as elites terão coragem para suspender as eleições do próximo ano?
 
HL: Eu acho que não vão ter essas condições não. Vontade eles têm. O STF está assumindo um poder que é ilegítimo, que é acima do que é estabelecido na Constituição. Poderia, portanto, tomar a decisão de prorrogar o mandato do atual presidente, mas eu acho que eles não vão ter essa condição. O povo brasileiro enxerga na eleição de 2018 um momento em que terá condições de dar uma virada.
 
O Bancário: Eu imagino que o PCdoB caminhe com Lula. Agora, sem Lula, será que a fragmentação da esquerda, que é o cenário apontado, ajuda a democracia?
 
HL: Não ajuda. Se for uma fragmentação propriamente dita, não ajuda. O Lula é uma liderança nacional importante. Se ele for candidato, vamos analisar a possibilidade de apoiá-lo. Mas não queremos apoiar da forma pela qual apoiamos no passado. Um apoio “gratuito”, muito na base da liderança dele. Agora termos de passar por compromissos políticos. Eu acho que o governo Lula foi o melhor dos últimos anos no Brasil, mas cometeu alguns erros. O que nós queremos agora, numa hipótese de um novo governo Lula, é acertar antecipadamente com ele, se dá para acertar esses erros.
 
O Bancário: E sem Lula?
 
HL: Nós discutimos a possibilidade de ter candidato. No campo progressista temos o nome de Ciro Gomes. Tem outros nomes de centro que estão sendo colocados, como o Alckmin. Tem a extrema direita que é o Bolsonaro. Mas, pela linha progressista temos Ciro, como falei, Roberto Requião. Flávio Dino não é candidato, pois vai para reeleição no Maranhão. Mas eu acho que ele é o grande nome do Brasil para a outra eleição, de 2022. Ele unifica todo mundo. O PCdoB pensou há algum tempo o nome do Aldo Rebelo, que não aceitou. Agora saiu do partido. Mas temos outros nomes como o da Jandira Feghali e do próprio Orlando Silva, ex-ministro. Esses nomes podem sair como candidatos e em um segundo turno podem unificar. E pode até no primeiro turno, a depender da situação, que retirem o nome para fortalecer a esquerda. Isso tudo é possível.
 
O Bancário: O Brasil vive um Estado de exceção?

HL: Não vive um Estado de exceção pleno, mas existe, dentro do Estado brasileiro, um embrião de Estado de exceção, que pode crescer mais ou menos. Por enquanto, não cresceu muito. Esse embrião é formado por setores do Judiciário, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. E setores do Parlamento com o apoio da grande mídia. Eles formam um grupo de exceção que tem tomado diversas iniciativas ilegais, irregulares. Manda prender sem provas, condena sem provas, estabelece conduções coercitivas sem necessidade, prisões provisórias indefinidas, que não se sabe quando terminam. Tudo isso é ilegal. Não existe na jurisprudência brasileira e está sendo feito sob as barbas do Supremo, que não diz nada e ainda apoia algumas dessas coisas.
 
O Bancário: Depois dessa ruptura, o Brasil precisa de uma nova Constituinte?

HL: Na verdade, uma nova Constituinte, do ponto de vista da esquerda, depende muito da correlação de forças. Essa Constituição que temos hoje foi feita na Constituinte de 1987, 1988, da qual eu participei, e que foi resultado de uma grande batalha do povo que derrubou a ditadura. Em função disso, o povo estava mobilizado, ativo. Foi uma Constituinte progressista. Se hoje nós fizermos uma Constituinte, será reacionária, com influência dessas ideias estapafúrdias que estão por aí e longe de melhorar o que já está na Carta.
 
O Bancário: O golpe pegou os progressistas completamente desmobilizados, na zona de conforto. Ao contrário de 64, quando havia uma elevada mobilização das forças populares. Que autocrítica os movimento sociais e os partidos de esquerda devem fazer?

HL: Nós não mobilizamos o povo durante 13 anos. Nós demos muitas vantagens a setores populares, vantagens econômicas e políticas. Mas não houve uma mobilização, uma educação política. Na realidade, se imaginou que a gente estava sentado no poder. No entanto, a gente estava no governo, e não no poder. O poder efetivo é o das Forças Armadas, dos meios de comunicação, dos tribunais. E nisso fomos displicentes. O próprio Lula indicava para o STF muita gente que mandou prender ele. Ele não prestava muita atenção a isso. Depois, o povão recebia regalias, como o Bolsa Família, mas não entendia porque recebeu.
 
O Bancário: Temer se salva?

 
HL: A última informação chegada de Brasília é de que há uma movimentação muito grande de setores que apoiaram ele na primeira vez e que agora é difícil apoiar.
 
O Bancário: O Ministério Público saiu do controle?

 
HL: Em parte, sim. O Ministério Público é um dos organismos que mais usurparam o poder. O MP não tinha nenhum poder no Brasil até a Constituinte passada. Naquela ocasião, demos muito poder e autonomia ao MP. A partir daí conquistou novas autonomias, como a financeira, que nós não demos. E de repente passou a ser um poder que não tem ninguém a quem prestar conta.
 
O Bancário: As instituições federais foram capturadas por setores da direita?

 
HL: Acho que sim. Não tenho dúvidas. Por exemplo, mandar prender deputado. Pela Constituição brasileira, parlamentar só pode ser preso em flagrante de crime inafiançável. Se não for flagrante, não pode ser preso. Isso está escrito. Mas, eles estão mandando prender.
 
O Bancário: Está dizendo que o PT fez certo ao defender o mandato de Aécio?

 
HL: O PT deve defender o mandato de Aécio, não pelo Aécio.
 
O Bancário: Então o PCdoB vai tomar a mesma posição?

 
HL: Vai tomar a mesma atitude.
 
O Bancário: Mas essa atitude pode atingir a credibilidade dos partidos progressistas e confundir a sociedade.

 
HL: A gente não pode se iludir com esse setor de direita que está no STF e começou a mandar. Quem é o Aécio? É um político desacreditado, desmoralizado. Mandar prender por que? A direita está mandando prender Aécio. Na verdade, eles querem prender Aécio como armadilha para em seguida mandar prender a gente. Por isso, não somos bobos de cair nessa armadilha. Não interessa para a direita prender Aécio. Eles querem isso para, em seguida, dizer o seguinte: já que prendemos Aécio, um grande líder da direita, que não vale mais nada, agora podemos prender o Lula, a Vanessa. Ai não.   
 

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