Entrevistas


Emir Sader responde

O sociólogo e cientista político conversou com os jornalistas de O Bancário, Rafael Barreto e Rogaciano Medeiros, sobre o golpe em curso no país.
 
O Bancário: O Brasil vive um golpe? As instituições reafirmaram o impeachment.
 
Emir Sader: É um golpe, porque apesar do reconhecimento, não há fundamentação jurídica legal constitucional que possa justificar o impeachment. O Supremo Tribunal Federal não deu a última palavra, e pode ser que nem diga. A Câmara pode aprovar o que bem entender. A Comissão de Justiça tem de avaliar se tem fundamento ou não. Agora, se existe alguma função do Judiciário, é dizer se a decisão tem fundamento judicial. Então, se supõe é que ainda existe uma última palavra, mesmo se o governo conseguir os dois terços.
 
O Bancário: Quais os interesses que o senhor apresentaria de maior impacto do grande capital a nível nacional e internacional, com o golpe no Brasil? 
 
ES: Eu acho que o mais importante é tirar o governo do PT. O resto é consequência disso. O sonho deles desde 2003 era tirar. Não conseguiram ganhar as eleições, então foram buscar um atalho. Agora tirar para quê? Para retomar um modelo neoliberal que significa, como o Meirelles mesmo mencionou, privatizar tudo o que consigam, desvincular recursos de políticas sociais que possuem vínculo constitucional, atacar os direitos dos trabalhadores, com o ataque a CLT, e reinserir o Brasil em uma posição de aliança privilegiada com os Estados Unidos. Eu acho que são os quatro temas básicos a se colocar em prática.
 
O Bancário: O senhor acha que o Senado vai reafirmar o golpe? Apesar de toda a repercussão negativa em nível internacional e apesar de o próprio Ministério Público Federal a essa altura considerar que pedalada fiscal não é crime de responsabilidade?
 
ES: A última votação é praticamente igual à votação inicial. Eu não sei como é a cozinha do Senado, mas eu sei quem são os cozinheiros. É gente que se possa imaginar que a sensibilidade popular não os pressione, senão já teria havido algum sintoma. Porque mudou completamente o clima do Brasil do início do processo do impeachment para agora. Não dá para justificar que o povo, a voz das ruas, quer o impeachment. Não é verdade. Na realidade, como diz o Requião, é difícil argumentar com quem já negociou. O Renan e o Temer praticamente disseram que compraram 60 parlamentares. Então, a caneta tá funcionando o tempo todo. Por isso, é difícil agora reverter votos. Eles não têm argumento, não tem povo na rua. Tem uma conjuntura eleita pelo financiamento privado como pano de fundo, como se estivessem no parlamentarismo. Eles hoje têm a maioria parlamentar.
 
O Bancário: A quem interessa a nova pauta econômica e política a ser imposta no pós-impeachment? 
 
ES: É basicamente fortalecer a hegemonia do capital financeiro, especulativo. Nem sequer o capital industrial está contemplado. O ministro que está lá não tem nada a ver com Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), por exemplo. O único vínculo que ele tinha com a indústria é que ele foi contador de uma indústria no começo da carreira. Então, quer dizer, é hegemonicamente o capital financeiro aliado ao agronegócio que é fortemente representado lá. E claro, externamente, os Estados Unidos.
 
O Bancário: Qual é o grau de prejuízo para os trabalhadores com esse novo cenário econômico que se avizinha?
 
ES: É um retrocesso maior do que aquele dos anos 90 porque os trabalhadores ganharam muito mais depois desse período: 70% de aumento real no salário e 20 milhões de trabalhadores tiveram acesso ao mercado de trabalho. Então, na verdade, são os trabalhadores que mais vão sofrer nesse momento. Os trabalhadores e a população beneficiária das políticas sociais do governo. Tanto assim que a mão vem pesada quanto à jornada de trabalho e flexibilização do trabalho. É um governo de vingança contra o povo e contra os trabalhadores.
 
O Bancário: O movimento social, especificamente o movimento sindical, está preparado para enfrentar uma correlação de forças como essa que vem aí?
 
ES: Ninguém está preparado, na verdade. O movimento sindical foi pego em um momento de enfraquecimento. Nós sabemos que a porcentagem de sindicalização dos trabalhadores é muito baixa no Brasil. Dos 20 milhões de trabalhadores novos que se incorporaram ao mercado de trabalho, uma porcentagem ínfima de 5% se sindicalizou. Quer dizer, nem sequer os novos incorporados. E as pesquisas não são boas nesse sentido. Há um desinteresse, despolitização, uma visão de clichê negativa em relação aos sindicatos. Então, era de se entender que nos anos 90 houvesse um enfraquecimento. Mas agora, não se entende bem porque no momento em que se aumentou tanto o mercado de trabalho formal, que o poder aquisitivo aumentou tanto, isso acontece. Eu acho que a expectativa é que agora, os trabalhadores se deem conta de que o sindicato pode protegê-lo dessa ofensiva patronal brutal contra eles.

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