Artigo

Felipe Neto e Anitta

Postado dia: 20/05/2020 - 00:00

Wilson Gomes, no Facebook 

Você é de esquerda ou antibolsonarista, mas não gosta de Felipe Neto e da Anitta? É simples. Faça melhor ou arranje alguém que o faça. "Melhor" significa, inclusive, que tenha alcance em M, que ultrapasse a bolha, que passe pelos filtros anti-PT e antiesquerda. Passe em resenha a esquerda toda (Lula, Ciro, Haddad, Flávio Dino e influenciadores digitais) e não vai encontrar quem chegue perto da influência, alcance e penetração de Felipe Neto e Anitta nas arenas digitais, onde o jogo da opinião política hoje é jogado. 

Pelo jeito, a esquerda que hoje acordou para queimar Felipe Neto subestima os filtros antipetistas e antiesquerda que pessoas de fora da tribo ativam automaticamente e lhes impede de dar atenção ao que vem da esquerda ou que é expresso em esquerdês típico. Não devia. Não tem como ganhar essa disputa querendo converter as pessoas a falar a sua língua e compartilhar as suas convicções, é preciso falar com elas sem que a conversão esteja em pauta e sem cobrar taxas tão altas como "reconheça que foi golpe e que você é um golpista". Ou morra na bolha. 

"Ah, mas Felipe Neto está mais para Ciro e Amoedo do que para o PT dos anos 1980". Meu amigo, em um país em que a maioria foi convencida de que o PT inventou a corrupção, de que Bolsonaro é um mito e por aí vai, você quer que exatamente o quê? Apagar tudo e reiniciar o sistema em 2004 quando todo mundo amava Lula e era feliz? Na democracia, você não precisa estar certo, você precisa que a maioria ache que você está certo. Aí vem um carinha que apoia ideias progressistas, "normaliza" narrativas progressistas que passam pelos filtros antipetistas e chegam a públicos fora do alcance da esquerda, o que é  mais produtivo? Ver nele um aliado ou abrir fogo contra ele por não ser um representante da esquerda da sua imaginação? Pois eu acho que deveria era levantar as mãos para os céus e agradecer que Anitta e Felipe Neto estejam do lado progressista da Força. Ou é inveja que chama?

 *Wilson Gomes é professor de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia