Artigo

Negacionismo: bem além da terra plana

Postado dia: 03/05/2021 - 00:00

O modo hegemônico, hoje, de reprodução do capital está centrado no sistema financeiro, no rentismo. E justamente por se sustentar somente no lucro, na especulação, se move por uma lógica econômica parasita, sem qualquer compromisso social, não gera emprego e muito menos renda. O Estado é hipermínimo para o povo e bem robusto para as classes dirigentes. Só funciona como ferramenta para maximização dos negócios e punição aos insatisfeitos, os rebeldes.  


É o que, de forma bem resumida, muitos autores chamam de ultraliberalismo, considerado ainda pior do que o neoliberalismo do final do século passado, que iniciou o desmonte do Estado de bem-estar social. Do ponto de vista da Ciência Política e da Sociologia, há sim diferenças entre liberalismo, neoliberalismo e ultraliberalismo. Retratam as fases de degradação econômica, política e social da história do capitalismo.


Se o pensamento clássico liberal admite a possibilidade da atuação do Estado onde o mercado não dá conta e o neoliberalismo, mesmo com a posição de Estado mínimo, ainda consegue conviver com certo grau de diversidade, de contradições, inclusive nas lutas identitárias, o ultraliberalismo é implacável e devastador nos planos político, social e institucional, pois opera sempre pela via da exceção, ao arrepio do Estado democrático de direito.


Tolerância zero com o contraditório, por menor que seja, repressão dura contra qualquer meio de organização e manifestação dos interesses populares. Nenhuma preocupação com a desconcentração da riqueza ou superação da pobreza. Pelo contrário, extingue políticas públicas e destrói toda a rede de assistência aos mais necessitados. Inclusão social não faz parte da gramática ultraliberal.


O povo, os pobres sem poder de consumo, as classes inferiores são largadas à própria sorte, tornam-se o que alguns estudiosos chamam de “indesejáveis”, porque incapazes de movimentar o sistema. Não têm dinheiro para aplicação no mercado de capitais nem impulsionam a sociedade de consumo.  São considerados inúteis, imprestáveis, inclusive passivos de eliminação. Com a superação do capitalismo industrial pelo rentismo, já nem prestam mais para alimentar o “exército de desempregados”. Até porque, a produção é a mínima possível, altamente seletiva e tecnológica. Não contam. São estorvos.


A exclusão está na gênesis do ultraliberalismo, em ritmo bem mais intenso e feroz do que no liberalismo e no neoliberalismo. É droga pesada, alucinógeno que destrói, mata. Para manter um sistema tão cruel, tão injusto, se faz imperioso oficializar o Estado policial. Mais do que ampliar e banalizar a violência estatal, dar um verniz de legalidade. Daí o tremendo esforço da extrema direita pela aprovação do excludente de ilicitude, na prática licença para a polícia matar, da prisão em 2ª instância e de outros dispositivos repressivos e punitivos. Os alvos são políticos, objetivam criminalizar as lideranças e ativistas dos movimentos sociais, da luta dos trabalhadores e da resistência democrática.


Em um cenário bem radicalizado, explosivo, a estratégia adotada pelo projeto de poder ultraliberal para conseguir o mínimo possível de apoio popular, de legitimação política, é usar o negacionismo como princípio primordial. Relativizar tudo, subverter a história, a ciência, conceitos e pressupostos consolidados, indispensáveis à vida em sociedade.


Incentivar paixões sobre falsos valores e narrativas, forjar “heróis”. Levar a exacerbação do eu, do individualismo, ao nível da insanidade. Promover a distorção criminosa das garantias individuais, da liberdade de manifestação e do direito de ir e vir, como artifício para querer justificar as violações à Constituição, à democracia e os preceitos republicanos. Artimanhas para tentar transformar as fake news em verdades absolutas.


Estratégia que confunde, lança dúvida, facilita a dominação de frações das massas. Faz com que o próprio indivíduo indesejável, passivo de eliminação, se sinta culpado, no dever moral, político e até religioso de apoiar e defender o sistema que tanto o exclui e oprime. É o paradoxo negacionista, que não se resume à terra plana, pois acima de tudo nega as liberdades, os direitos, a justiça, a cidadania e até o sagrado direito à vida. O negacionismo fornece o embasamento superestrutural do ultraliberalismo.

 

* Rogaciano Medeiros é jornalista