Artigo

Voto auditável é delinquência

Postado dia: 31/05/2021 - 00:00

Na política, como na vida, as expressões “nunca” e “impossível” são sempre perigosas e podem acarretar surpresas desagradáveis, decepções. Por isso mesmo, a sociedade brasileira, as lideranças democráticas e, neste momento, acima de tudo, o STF, precisam ser rigorosos na rejeição contundente e imediata à proposta, vale sempre destacar, inconstitucional, de voto impresso e auditável.
O Brasil vive uma conjuntura político-institucional muito delicada, perigosa. O mínimo descuido pode ser fatal para a democracia e empurrar ainda mais o país para o obscurantismo. Todo cuidado é pouco. É bom não esquecer a origem colonial, escravista e violenta das elites. E quando se trata de golpear um projeto popular, aí são capazes de qualquer insanidade. Vide a história.


Se o retorno do voto impresso, que por longos anos, desde o Império e por muito tempo na República, tanto ajudou a manter no poder os latifundiários, senhores de escravo, os clãs, os “coronéis”, enfim as oligarquias, representa um retrocesso inaceitável, o voto auditável é mais um movimento golpista da extrema direita para alcançar o poder absoluto, como aliás Bolsonaro sempre admitiu. É fundamental neutralizá-lo imediatamente, com base na lei.


O voto auditável é uma imoralidade, uma delinquência eleitoral pois acaba com a inviolabilidade das urnas. Agride frontalmente a democracia, a vontade popular. Ofende a Constituição no âmago. Imagine, o Estado tornar público em quem cada cidadão e cidadã votou! A eleição deixa de ser livre e secreta. A sociedade torna-se refém do poder econômico e das organizações criminosas.


No Parlamento, com Arthur Lira (PP-AL) na presidência da Câmara Federal e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) do Senado, as perspectivas não são animadoras. Se faz necessário uma resistência altamente combativa. Importante também pressão total sobre o STF, além, claro, da luta política, da mobilização popular.


Aliás, as manifestações de sábado passado, em todo o Brasil, demonstram que, após algum tempo anestesiados, importantes e influentes segmentos da sociedade começam a acordar, com disposição de voltarem às ruas para contribuir na derrocada do neofascismo bolsonarista e no resgate do Estado democrático de direito. Que os deuses da democracia digam amém.


* Rogaciano Medeiros é jornalista