Artigo

Quem quiser que duvide

Postado dia: 05/07/2021 - 00:00

Muito intrigante, a conversa de que o consórcio de forças ultraconservadoras que sustentam Bolsonaro estaria disposto a substituí-lo por outro nome, servil à agenda ultraliberal, claro, devido os desgastes políticos e eleitorais que têm feito desmoronar o projeto de reeleição do presidente, abalado com a CPI da Covid, os escândalos de corrupção, a culpa pelas mortes na pandemia, a falta de vacina, o desemprego, a fome, a inflação e o aumento drástico da violência, principalmente a policial.


Tem um detalhe que torna a argumentação ilógica. Pela via democrática, na atual conjuntura Bolsonaro é o único nome com potencial eleitoral para não apenas tentar manter a extrema direita neofascista no poder, mas acima de tudo salvar o projeto ultraliberal no Brasil. Sem ele, a tendência é uma vitória avassaladora do candidato do campo progressista, que, tudo indica, deve ser Lula e, imagina-se, assuma um projeto de governo pautado na democracia social: liberdades e direitos com desconcentração da riqueza e superação da pobreza.


Em uma realidade tão polarizada como a brasileira, a exclusão de Bolsonaro da disputa é antecipar a consagração de Lula e, do contrário, a garantia da reeleição do presidente. Vale lembrar 2018, com o petista fora do páreo. Tem mais, o tempo parece curto para assegurar, mesmo com todo o conluio da mídia comercial, a construção de uma candidatura competitiva da direita não negacionista, com capilaridade eleitoral ao ponto de enfrentar e derrotar Lula.


Tudo bem que na política nada é impossível e no capitalismo periférico, como é o caso do Brasil, o inimaginável costuma acontecer. Óbvio, sempre para favorecer os poderosos. Por isso mesmo, não se pode considerar como teoria da conspiração, o risco de a grande maioria das elites que detêm o poder nos planos econômico, político, militar e midiático fecharem um arranjo para tentar inabilitar Bolsonaro e Lula da corrida presidencial.


É o único meio de impedir o retorno das forças progressistas e possibilitar a eleição de um nome da tal terceira via, ou seja, da direita perfumada, não negacionista, para manter a agenda ultraliberal sem os horrores bolsonaristas. Para o governo Biden, seria o melhor dos mundos. Quem quiser que duvide.


*  Rogaciano Medeiros é jornalista