Artigo

O Par de Dois

Postado dia: 09/07/2021 - 00:00

Uma das questões que mais instigam jornalistas, analistas políticos e parte da sociedade brasileira e mundial é buscar explicações para o resiliente apoio ao atual mandatário mor do país, a despeito das diversas evidências de barbaridades cometidas, sejam por ação ou inação, ao longo dos 30 meses de (des)governo. Ainda que as últimas pesquisas registrem avanços importantes na corrosão do bolsonarismo, manter aproximadamente 25% de apoiadores em um cenário de elevadíssimo desemprego, tragédia pandêmica, recordes de desmatamento, desmantelamento da agenda de Estado em áreas como educação, cultura e Ciência, Tecnologia e Inovação, além de evidências generalizadas de corrupção, não é um feito que se explica com facilidade, sobretudo entre os que possuem acesso à informação.

 

Antes de compreender o contexto mais específico do momento, é imperativo um pequeno retrocesso temporal. Quando Bolsonaro recebeu os cerca de 57 milhões de votos, em outubro de 2018, os seus eleitores já sabiam da sua defesa à tortura (“Sou favorável à tortura, tu sabe disso”), à ditadura (“Sou a favor, sim, a uma ditatura, a um regime de exceção”), ao genocídio indígena (“Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país”), ao extermínio dos adversários (“ Eu acho que tinha que matar uns 30 mil, começando pelo FHC” e “Vamos fuzilar a petralhada aqui no Acre”) e do seu comportamento racista (“Fui num quilombola em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriadores servem mais”). Estavam cônscios, ainda, da sua fama de envolvimento com as rachadinhas (depoimentos da ex-mulher antes da eleição, Val do Açai) e do seu desempenho pífio como parlamentar. Outrossim, como fez questão de avisar, seu governo seria de destruição e não de construção. Desse modo, pelo menos em relação à parte esclarecida do eleitorado, que se deixou seduzir por uma agenda liberal ou anti-esquerda, não se pode atribuir a ingenuidade dos principiantes no jogo do pôquer, que se aventuram em apostas soberbas com um par de dois em mãos. Tinham, sim, um par de dois, mas sabiam que jogo estava sendo jogado.

 

Uma parte importante dos eleitores, durante os últimos anos, compreendeu que a manutenção de apoio a um governo identificado como pária internacional, inimigo do meio-ambiente quando as evidências dos efeitos do aquecimento global pululam nos diversos continentes, ideológico, a ponto de destratar com renovada frequência o principal parceiro comercial do país, e deselegante com lideranças políticas mundiais e com a imprensa, traria, como traz, impactos negativos na inserção econômica do país. A retirada do apoio se deu, então, sobretudo, pela identificação da necessidade de uma versão mais polida e cordata para o cumprimento da agenda neoliberal.

 

Em relação à parte que não deixou o jogo, há de se concordar que a aceitação de genocídio seletivo, racismo, homofobia, anti-democracia e tortura já sinalizava a necessidade de um cacife muito representativo na sua entrada. À medida que houve a relativização da exacerbação anti-democrática, a indiferença ao fim da agenda anti-corrupção e a aceitação da incapacidade de gestão, o jogador em blefe já havia decuplicado o valor inicial da aposta. Daí que dobrá-la e redobrá-la para acomodar a aceitação de práticas corruptas, a devastação do meio-ambiente e o genocídio pandêmico tornou-se uma decisão quase que natural. Além disso, como bem descreveram Mlodinow e Gianetti, não se deve desprezar o papel do inconsciente e do autoengano para nos socorrer quando precisamos de doses maciças de autoindulgência para comportamentos que, com algum apreço à razão, seriam impossíveis de serem explicados.

 

*Horacio Nelson Hastenreiter Filho é professor associado da Escola de Administração da UFBA