Artigo

Todo cuidado é pouco

Postado dia: 12/07/2021 - 00:00

A realidade cada vez mais desfavorável do ponto de vista político e, de certa forma, também institucional, tem deixado Bolsonaro, presidente de baixíssima inteligência emocional, alucinado ao ponto de cometer erros sucessivos que só fazem deixá-lo ainda mais isolado e enfraquecido, em todos os aspectos.


Na dimensão eleitoral, da vontade popular, nem se fala, e as pesquisas estão aí para comprovar o desmantelo da tragédia bolsonarista. Verdade que a política é dinâmica e de repente tudo pode mudar, mas pelas urnas, pela via democrática, dificilmente o presidente conseguirá se reeleger.


No plano institucional, apesar das bravatas do presidente, de todo assédio à democracia feito por generais governistas, da nota conjunta do Ministério da Defesa, comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica, com ameaças à CPI e à Constituição, ainda não há como afirmar que Bolsonaro tenha respaldo majoritário na caserna, entre as elites políticas e econômicas para desrespeitar o resultado das urnas, violar o calendário eleitoral, enfim romper com preceitos constitucionais.  Inclusive porque a derrota bolsonarista não significa, necessária e automaticamente, a superação da agenda ultraliberal. Seria ótimo que fosse. Abreviaria muito sofrimento do povo.


O obscurantismo e a violência próprias do neofascismo bolsonarista, o negacionismo, a irresponsabilidade perante a pandemia, o desprezo às mais elementares regras indispensáveis à civilidade, fazem com que segmentos da sociedade das mais distintas matizes, inclusive frações poderosas que até pouco tempo o sustentavam, se juntem para derrotá-lo, o que tem gerado uma rápida desidratação na base de apoio do presidente e do governo.


Em uma conjuntura de crescente mobilização popular, com multidões nas ruas exigindo Fora Bolsonaro, a indignação se espalhando por todas as camadas da sociedade e acelerada perda de apoio até mesmo entre as forças que o elegeram, a previsão mais plausível para 2022 é Bolsonaro perder a reeleição, com Centrão, milícia virtual e tudo, e o tão propalado golpe dar xabu, apesar da vontade do presidente, dos comandantes militares, da extrema direita ensandecida.


Mesmo assim, não custa nada estar atento aos mínimos detalhes. Todo cuidado é pouco, pois não se pode desprezar a tradição golpista das elites nativas. Trata-se de Brasil, América Latina, capitalismo periférico.


* Rogaciano Medeiros é jornalista