Artigo

Eleição plebiscitária

Postado dia: 13/09/2021 - 00:00

A conjuntura brasileira atravessa um momento delicado e perigoso, pelo menos para os interesses populares, para aqueles que mais necessitam da ajuda do Estado, o que contraria frontalmente o pensamento e a ação do projeto ultraliberal, quer dizer, de Bolsonaro, simples gerentão, e do conjunto das forças que o apoiam. As elites políticas, econômicas, militares e religiosas que sustentam o governo e o presidente.

 

O que está em jogo agora, com disputas cada vez mais desleais à proporção que se aproximam as eleições do próximo ano, é a agenda econômica ultraliberal. Tudo bem, Bolsonaro é estúpido, ameaça a ordem constitucional, assusta até mesmo a direita perfumada que ajudou a elegê-lo e depois se arrependeu por não ter conseguido enquadrá-lo, mas sem ele os donos do poder não estarão “seguros”, pois os pobres podem voltar a ser incluídos no orçamento do Estado.

 

A tal candidatura da 3ª via não se concretiza. Sobram nomes, faltam votos e apoiadores. O ato do MBL no domingo deixou bem claro. Pelas urnas, dentro da legalidade, a democracia social tem tudo para retomar o poder central. O povo não aguenta mais tanto sofrimento e desprezo. O medo da vontade popular é um detalhe que tem dificultado a unificação do poder econômico pela aprovação do impeachment e/ou o desmantelo eleitoral definitivo do presidente capitão.

 

Mexer no tabuleiro pode provocar solução de continuidade, interromper o fluxo ultraliberal das privatizações lesa-pátria, dos cortes de direitos políticos e trabalhistas, das restrições das liberdades, enfim lançar luz sobre o obscurantismo. A raiz de tudo está na economia. As elites não estão nem aí para a preservação do Estado democrático de direito, tampouco da República. Nunca estiveram por esses lados do capitalismo periférico, onde cidadania é um bem exclusivo de uma ínfima minoria entreguista, servil à metrópole.

 

Os mesmos poderosos que elegeram Bolsonaro estão agora dando uma prensa no capitão, reunindo provas capazes de levá-lo à cadeia junto com os filhos, a fim de chantageá-lo, em mais uma tentativa para enquadrá-lo, pois no fracasso de um novo lawfare e do surgimento, improvável, de um nome alternativo, podem tê-lo como única solução para salvar a agenda ultraliberal pela via democrática. A “Operação Temer”, no pós 7 de setembro, é sintomática. Como diz o provérbio português: “Quem não tem tu, vai tu mesmo”. A eleição presidencial de 2022 tem caráter plebiscitário entre democracia social e ultraliberalismo neofascista, Lula ou Bolsonaro.

 

* Rogaciano Medeiros é jornalista