Artigo

A rua como moradia: retrato da exclusão

Postado dia: 19/10/2021 - 00:00

O Fantástico do dia 17 de outubro exibiu uma reportagem de uma ex-moradora de rua que conseguiu se transformar em uma empresária através da arte. Com sua empresa de poledance, Juliana Muniz conquistou vários títulos em campeonatos nacionais e internacionais. Sua história é mais um exemplo de que a rua como moradia não é um desejo, mas uma necessidade em função da falta de suporte social e familiar.


Os pais de Juliana eram muito jovens. A mãe com 16 anos e o pai com 18 anos. Juliana afirma que até os 11 anos, viveu cada hora em um canto. Teve uma infância muito pobre, sem apoio e suporte. Para completar sofreu assédio sexual desde os 4 anos. Quando completou 16 anos fugiu para a rua para não ser abusada pelo padrasto. Veio as drogas, a fome, o frio, a gravidez. Deixou a filha com o pai e mudou de cidade.


Em São Roque, interior de São Paulo, conheceu uma amiga e através dela foi trabalhar em uma boate. Lá, começou a praticar polidance. A partir daí criou sua empresa e hoje vive em condições dignas com a família. Assim como Juliana, milhares de moradores em situação de rua necessitam de suporte familiar, social ou do Estado para viverem dignamente. Pelo relato das pessoas que já entrevistei ninguém está na rua por prazer, e sim por falta oportunidade.


O aumento da pobreza vem se intensificando nos últimos anos e durante a pandemia se agravou. Em 2019, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, o país tinha 23,1 milhões de pobres. Em abril de 2021, o número pulou para 27,7 milhões. 


A queda na renda per capita dos 50% mais pobres foi significativa. Do quarto trimestre de 2019 para o segundo trimestre de 2021 caiu de R$ 219,00 para R$ 172,00, redução de 21,5% (https://cps.fgv.br/DesigualdadePandemia).


O Brasil, um país com profundas desigualdades, com a política do atual governo federal, intensifica a exploração e a exclusão social. A fome, o desemprego, a redução da renda dos pobres, a falta de suporte e de oportunidades, levam uma multidão a morar nas ruas, não por prazer, mas por falta de alternativa e por terem sido excluídos dos direitos fundamentais de uma vida digna. 


* Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ