Artigo

Bolsonarismo à sua maneira

Postado dia: 18/11/2021 - 00:00

Passados 34 meses do início do governo Bolsonaro, os saldos principais do período apontam para a destruição de cerca de três milhões de hectares da floresta amazônica, mais de 610.000 brasileiros mortos pela pandemia de Covid-19, mais de 52% de inflação acumulada pelo IGP-M, cerca de 10 milhões de brasileiros incluídos no grupo dos que passam fome e mais de 30 milhões de desempregados. Esses dados aterradores retratam o estágio atual do processo de destruição, prometido na campanha, mas escondem a frustração de possibilidades de futuro representadas por áreas tão estruturantes quanto a educação, a ciência e tecnologia e a cultura, todas profundamente impactadas pelo desmanche bolsonarista. Ainda assim, há quase 25% dos brasileiros que continuam a apoiar o presidente.


Adotando-se a perspectiva Tatcheriana, de olhar para os fatos, única e exclusivamente a partir do seu interesse econômico, é possível identificar três grupos de apoiadores: aqueles que, de fato, tiveram ganhos proporcionados pela forma de agir do governo, aqueles que tiveram ganhos pontuais e perdas, mas são incapazes de ponderá-los de forma precisa, e aqueles que não tiveram ganho nenhum, mas continuam a emprestar o seu apoio.


Pertencem ao primeiro grupo, parte importante do Congresso, beneficiada com as emendas do orçamento secreto, grileiros, garimpeiros, milicianos e militares. Esses últimos não somente aqueles 7000 que ocupam cargos comissionados no governo, mas todos os membros das três forças, favorecidos pela condição de exceção nas medidas de arroxo salarial e nas novas regras previdenciárias, impostas aos demais servidores. 


O setor empresarial é o mais representativo do segundo grupo. Se, de um lado, passou a gozar de um benefício imediato, com a redução dos custos empregatícios, favorecida por uma regulação que desmancha os direitos trabalhistas, por outro, parece ignorar a importância da atividade econômica para o sucesso dos seus negócios, bem como da educação e da agenda de ciência, tecnologia e inovação para a alavancagem de uma produtividade que se encontra estagnada e incapaz de impulsionar a competitividade das empresas nacionais.


O último grupo, entretanto, se apresenta como o mais complexo. Como compreender o apoio daqueles que, seguindo a racionalidade estritamente econômica, não estão auferindo vantagens nesses últimos três anos, mas mantêm o apoio? A resposta mais simples, mas talvez, ainda assim, a mais precisa, está, muito provavelmente, no antipetismo. Esse, no nível que se estabeleceu entre os brasileiros, entretanto, continua precisando ser explicado. Não é desprezível o efeito das redes sociais e da difusão de Fake News para o crescimento do ódio ao PT e para que sejam desconsideradas as melhorias na quase totalidade dos indicadores, experimentadas nos mais de 13 anos de governo petista, mas esse é certamente insuficiente. Segundo Tolstoi, cada família é infeliz à sua maneira e, da mesma forma, há razões próprias no despertar e a alimentar o antipetismo.


Desse modo, há, entre os médicos, por exemplo, uma revolta disseminada com o programa Mais Médicos, responsável pela contratação de cubanos para cuidados de atendimento primário à saúde. Entre os gestores de organizações com trabalhadores organizados, há os insatisfeitos com o empoderamento sindical. Entre as donas de casa, por sua vez, há aquelas inconformadas com os direitos adquiridos pelas empregadas domésticas.  Os evangélicos, com uma pauta conservadora própria, veem o petismo como a encarnação do apoio à diversidade, tolerância e inclusão que tanto os incomodam. Complementarmente, mas bastante representativos, estão aqueles que, despreparados para um posicionamento alicerçado em reflexões sobre a história e a luta de classes, se veem integrados ao debate político a partir da postura lacrativa, subsidiada pelas desinformações oriundas do gabinete do ódio. Esses últimos se comportam como torcedores de futebol que possuem na raiz do ódio ao time rival a satisfação de ver torcedores adversários infelizes. Nesse caso, o antipetismo é, mais que tudo, a materialização do desejo de não ver o seu oponente de esquerda satisfeito ou, pior ainda, dono da razão. As diversas explicações do antipetismo assemelham-se por originarem-se de guerras e processos competitivos particulares que se colocam, algumas vezes, acima da racionalidade econômica e da ética, alimentando-se de disputas próprias cujas necessidades de vitória adquirem status absolutamente imperativos. O jogo que cada um joga na sua vida tem regras próprias e, com muita frequência, ganhar o jogo torna-se irrelevante diante da possibilidade de estar à frente daquele que são os escolhidos como adversários preferenciais.


* Horácio Nelson Hastenreiter Filho é professor associado da UFBA