Artigo

Cinda desarmada se salva

Postado dia: 07/12/2021 - 00:00

Em 28 de junho deste ano, após 20 dias, em uma operação que envolveu 270 policiais em Goiás, Lázaro, acusado de homicídios, foi morto com dezenas de tiros. Os policiais vibraram e comemoraram o resultado da operação. Em 4 de dezembro de 21, um outro homicida, acusado de matar a esposa, uma criança e um fazendeiro, chegou em uma fazenda armado, fez o movimento que ia atirar na fazendeira Cinda Mara, que estava em casa sozinha, desarmada, às 6h30 e ameaçou "vou te matar".


Não matou. A fazendeira relata o diálogo: "você não vai me matar, eu vou te ajudar. A gente vai ligar para a polícia, porque a polícia não vai te matar, eles vão vir te pegar. Então eu tive de ser bem fria". Assim, a fazendeira se salvou e, junto com o marido, levou o criminoso armado até a delegacia de Anápolis, onde ficou preso. Neste episódio, ninguém ficou ferido, chegando ao fim uma operação policial que já durava uma semana. (Globo, 04-12-21) 


O secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, não aprovou a atitude de Cinda. "O que levou ele a se entregar foi o cerco. Logicamente que o aconselhamento ajudou, mas o que levou ele a se entregar foi o cerco apertando cada dia mais. Ela foi muito corajosa, sim, mas não é uma atitude aconselhável. A gente já fez o agradecimento a ela".


Diante de uma situação extremamente perigosa, uma mulher desarmada, de frente com um criminoso armado, consegue não só se salvar como também prender o acusado. Não entendi por que o secretário de segurança afirmou que a atitude não era aconselhável. Qual seria a alternativa? Seria enfrentar a pessoa armada? De que forma? O enfrentamento lhe daria chance de sair viva?


O criminoso precisa responder por seus crimes. A legislação brasileira prevê prisão e não existe pena de morte. Uma operação policial eficiente é aquela que cumpre com os requisitos legais, prendendo o acusado e se é perigoso, seja lá quem for, deve se afastado do convívio social para não colocar em risco a vida das pessoas. A fazendeira Cinda, desarmada, diante de um Wanderson Protácio armado, conseguiu o que 270 policiais fortemente armados não conseguiram no caso de Lázaro. Fica a reflexão.


* Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ