Artigo

A simetria que interessa

Postado dia: 11/01/2022 - 00:00

Na busca desesperada por uma 3ª via (que na verdade é outro nome da direita), a turma do "nem-nem" (nem Lula nem Bolsonaro) sempre faz uma falsa simetria — por exemplo: "Bolsonaro faz ameaça de golpe, mas Lula quer regulação da mídia". É como, no futebol, um jogador ser expulso e ficar provocando o adversário, para que este também receba o cartão vermelho.


Quando se vai criticar o genocida, acha-se alguma coisinha do adversário ideológico do genocida para estabelecer uma simetria e chegar à conclusão: “Nem Lula, nem Bolsonaro, precisamos da 3ª via” (na verdade, seria: “precisamos de um direitista, mas não Bolsonaro”).


O Estadão, por exemplo, que entre a civilização (Haddad, professor da USP) e a barbárie (Bolsonaro, notório defensor da ditadura), disse ser “uma escolha difícil”. Pior: escolheu a barbárie.


O Globo, a Globo, a Band, a Folha e o Estadão estão enfurecidos com a ideia de Lula de fazer o que Espanha está fazendo: a revisão da tal “Reforma Trabalhista” (se a daqui foi inspirada na de lá, e lá deu ruim — entonces…).
Mas a reforma trabalhista seria uma ótima pauta para essa imprensa fazer SIMETRIA. Se houvesse honestidade — e não mero interesse econômico de patrões. 


Pode-se, deve-se fazer a SIMETRIA.


Como era o Brasil de 2003 a 2016, sem “reforma trabalhista” (encomendada pelos patrões) e como passou a ser após Temer/Bolsonaro. Tópicos: quantos empregos foram gerados num e noutro período? Qual a taxa de desemprego? Quando, pela única vez na história, o país esteve em “pleno emprego”? Qual foi a menor taxa de desemprego da história? Quantos trabalhadores estavam na informalidade e quantos estão? Quantos tinham carteira assinada e quantos hoje têm? Tinha Ministério do Trabalho e não tem mais. E a Justiça do Trabalho? A reforma não entregou nada dos empregos prometidos, ao contrário só gerou precarização, terra arrasada, extinção de direitos e os trabalhadores ao Deus-dará.


Globo, Estadão, Band e Folha poderiam fazer essa SIMETRIA. Essa, sim, seria oportuna e justa na vida prática de milhões de brasileiros. A reforma trabalhista foi boa para quem? Foi ruim para quem? Há dados comparativos de antes e depois? JAMAIS vão fazer essa simetria, essa comparação — não interessa.


Mas a campanha eleitoral vai fazer, claro. Esperemos…


*Marcelo Torres é jornalista, escritor