Artigo

Um sabonete e um desodorante

Postado dia: 25/01/2022 - 00:00

No início de janeiro/2022 fui levar minha filha para fazer o exame para detecção de Covid-19 em uma farmácia no bairro da Pituba. Chegando lá tinha uma senhora na porta. Ela se afastou um pouco e falou: “eu não quero dinheiro”. Lhe perguntei: “está precisando de que?”. Ela me disse “um sabonete e um desodorante”. Achei um pedido atípico, mas pensei comigo, deve ter seus motivos. Vou ajudar.  Ela fazia parte da população em situação de rua.


Entrei na farmácia, comprei o desodorante e o sabonete e entreguei a ela e fiquei conversando alguns minutos. Me informou que tinha 37 anos, veio de Mato Grosso porque a situação estava difícil e estava em Salvador em busca de emprego para ajudar os pais. Segundo ela, o seu neto de 4 anos disse que ela podia viajar que ele cuidava dos pais dela, e a conversa continuou enquanto minha filha ficou na fila esperando o teste rápido de Covid.


Perguntei a ela se já tinha garantido o almoço. Ela me disse que não. Tirei R$ 10 da carteira e lhe entreguei. Ela disse que conseguia almoçar por R$ 13, mas que ela tinha o restante para completar. Fiquei conversando, ela disse que tinha solicitado uma pasta de dente a outra pessoa que entrou na farmácia, mas estava demorando ela ia embora e assim o fez, se despediu e foi. 


Laura, nome fictício, faz parte do exército de moradoras e moradores em situação de rua, cujo aumento é perceptível por todos que observam a realidade das cidades. O município de São Paulo tem feito censos periódicos e de 2015 para 2021 o número dobrou, saiu de 15.909 para 31.918. No período da pandemia, 2019 a 2021, houve um crescimento de 7.540 pessoas que, por falta de oportunidade, estão utilizando a rua como alternativa de moradia. 


A quase totalidade dos moradores em situação de rua são trabalhadores e trabalhadoras desempregados, e mesmo na rua exercem alguma atividade informal, estão nesta condição por falta de oportunidade, de suporte social, familiar ou do estado. São vítimas de um sistema injusto de alta concentração de rendas e de exclusão social.


Laura de fato necessitava do desodorante e do sabonete. Ela me falou que precisava tomar banho e se perfumar para procurar um emprego.

 

*Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ