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O que fica é a saudade. Memória como ato político

Postado dia: 14/02/2022 - 00:00

Uma preocupação vital para os gregos antigos era não ser esquecido. Mais do que temer a morte propriamente dita, ser apagado da história e não estar na memória das gerações futuras constituíam os reais sentidos de uma vida virtuosa para os helênicos. Dessa experiência cultural, decorreu a invenção do “herói trágico” que, padecendo na batalha, renascia como um herói.


Como nós brasileiros lidamos com a memória? Como lidamos com os acontecimentos históricos? É dito em adágio popular que o brasileiro tem memória curta e que, mesmo passando por agruras, esquece logo o que aconteceu. Seriam, portanto, naturalmente típicos de cada cultura esses modos de lidar com a memória e com os acontecimentos históricos ou algo construído socialmente e mediados pela dimensão política? As mediações políticas no Brasil têm contribuído com os apagamentos de nossas memórias e reforçado aquela outra máxima de que um povo sem memória é um povo sem história?


Sobre esse e outros modos de viver a vida, principalmente em relação a memória, aos acontecimentos e aos sentidos da existência, a humanidade tem experimentado variadas possibilidades de convivência ao longo da história.


Com a pandemia, mais especificamente com o “genocídio” provocado pelas políticas no governo Bolsonaro em relação a minimização da covid-19 chamando-a de “gripezinha”, com o financiamento e a difusão de medicações ineficientes, o chamado “kit covid”, e em relação ao holocausto do experimento “efeito manada”, sobretudo o que ocorreu na região Norte do país e mesmo com toda a insistente posição antivacina, ainda que dúbias, morreram até o presente momento mais de 630 mil pessoas, sendo que um número considerável poderia ainda estar viva e ao lado dos seus entes queridos.


Mesmo que se possa concordar que a história é sempre recontada e dotada de possíveis novas interpretações e que há “uma plasticidade da memória”, há experiências vividas decorrentes de acontecimentos reais legando lições que não devem ser desprezadas pelo simples fato de se pagar um alto preço. Justamente por isso é que a humanidade pode aprender com seus erros, evitar o que faz mal e buscar caminhos melhores. Por outro lado, concordar com a importância da memória também não significa que sejamos presos a ela. A experiência do perdão é um bom exemplo de que há coisas que precisam ser resignificadas para haver superações.


Em nossa língua portuguesa há uma das mais belas palavras, que é “saudade”, e que tem tudo a ver com o sentido de memória, mas não a memória que paralisa e sim a que nos faz resignificar a existência, permitindo uma eterna ligação com o passado e ao mesmo tempo possibilitando um presente afirmativo e um futuro desejante.


Em nossa cultura, a palavra saudade ganha um sentido que não se restringe a ideia de nostalgia ou a falta de alguém ou algo. Saudade é isso tudo, mas também sua transformação e que é belamente expressa na música “saudade fez um samba”, de João Gilberto.


A experiência da cultura brasileira, portanto fruto de uma construção social, tem coisas maravilhosas e muito certamente tão sublimes quanto, por exemplo, a cultura helênica do herói trágico. Uma experiência cultural (e linguística, obviamente) que criou o polissêmico sentido de saudade não desvaloriza a memória e nem tampouco tem uma “memória curta”. O que parece nos assolar é esse apagamento da nossa própria história, dos nossos acontecimentos e das nossas memórias via as infelizes mediações políticas que podem, inclusive, destruir as coisas belas.


Memórias que não sejam paralisantes e que não nos prendam em dores sufocantes, mas memórias que nos façam lembrar, memórias que nos ensinem e nos libertem, memórias como ato político, memórias como saudades.
Essas mortes não podem ser em vão!


O que fica é a saudade.


Este texto é uma homenagem a todos e a todas que morreram em decorrência da covid -19.

 

* Marcelo Silva de Souza Ribeiro é psicólogo, professor e doutor em educação