Artigo

Burrice do cancelamento

Postado dia: 18/02/2022 - 00:00

A burrice do cancelamento é a versão pós moderna da inquisição tingida de vermelha.


“Mundo mundo vasto mundo/ Se eu me chamasse Raimundo/ Seria uma rima, não seria uma solução”. Havia uma pedra no meio do caminho, mas não era o de Drummond, gauche na vida. Nem quero imaginar Drummond se, além de todas as patrulhas com as quais conviveu na vida, vivesse na era do cancelamento e da lacração. Qualquer primeiranista de sociologia, que tenha lido a orelha de cinco livros na vida, vira crítico de arte se tiver um canal de yotube. Logo arregimenta um exército de seguidores que entendem tanto de arte quanto eu entendo do funcionamento de teoria quântica.


A função de vigiar e punir, antes relegada à igreja católica, foi transferida para setores pós modernos da esquerda, que sob a influência de uma cultura anglo-saxã puritana, resolveram passar a limpo o mundo das artes. Qualquer semelhança com a condenação nazista dos artistas modernos como “arte degenerada” não é mera coincidência. A esquerda faz alarde quando fascistas invadem teatros tentando apedrejar artistas pós modernos em suas performances, mas faz exatamente a mesma coisa, não só com qualquer artista atual, mas incluindo com a memória da cultura popular em que não se enquadre no purismo de suas cartilhas.


Há claros problemas de enquadramento na cultura do cancelamento. Óbvio que não é aceitável e nem tolerável que se faça humor racista, machista, misógino, etnocêntrico, ou que use da desculpa da arte para pregar a intolerância. Mas a estética não é um discurso político determinista, sem espaço de alegoria e metáfora, que divide as pessoas e os artistas em duas categorias: os que seguem a apedeuta nova cartilha do bom comportamento bom-mocista e entraram no seu puritano anglo saxão pós moderno, do outro lado, todos que não seguirem esta cartilha seriam bolsominions admiradores do nazista mor de plantão. O que obviamente é uma mentira sectária, muito parecida com a divisão escatológica das seitas neo-arrebatadoras entre “nós” e “eles”. Quem não concorda conosco, é pecador, tem que ser punido (cancelado).


O primeiro erro imbecil desta visão é confundir realidade com alegoria da realidade, com representação da realidade. Arte é alegoria, mitologia, simbologia e semiótica. Descrever um assassinato, por exemplo, não é fazer apologia de um assassino. Por uma visão tosca de estética, Edgard Allan Poe seria um serial killer que não realizou seus desejos mais secretos, e seria impossível ler e entender escritores reacionários, mas profundamente desvendadores da alma humana, como Lautreamont e Sade. Pela mesma linha teríamos que queimar, na mesma fogueira santa vermelha, Oscar Wilde (reacionário anticomunista), Balzac (monarquista antissocialista), Nélson Rodrigues (machista defensor da ditadura), Lispector (uma elitista alheia ao sofrimento social, segundo alguns) e a lista seria interminável. De verdade que sobraria pouca coisa nas bibliotecas, passando por Milton, Dante (era do partido papal na Itália), Baudalaire, Paul Verlaine, Unamuno, Joyce, Proust, etc, etc, etc. 


O primeiro erro enlaça, de maneira ainda mais acrítica e aterradoramente burra, o segundo erro da análise lacradora/canceladora da arte. O biografismo estreito. De perto ninguém é normal, já diria Caetano Veloso. Confundir a biografia do artista com sua obra é de cair o cu da bunda. Seríamos proibidos de estudar Heidegger e entender a fenomenologia (ele foi um apaixonado e fervoroso nazista, que discursou e escreveu elogios a Adolf Hitler) e teríamos que fechar sem abrir a filosofia de Nietzsche (sem a qual não poderíamos entender nem a modernidade ou a pós modernidade). Aviso aos lacradores que há trechos de ataques de Nietzche aos anarquistas, aos socialistas, aos defensores de animais, aos veganos, às feministas? Pela linha do biografismo infantil, nos prenderemos às frases soltas de obra do genial filósofo e deixaríamos de ler “A genealogia da Moral” e “Para além do bem e do mal”, e seríamos proibidos para sempre de entender toda a filosofia posterior que se baseia na defesa nietzschiana do ataque de todos os ismos e do desvendar do mal que há na forçada bondade cristã.


Já dizia Dante que a Retórica é o rio mais raso do inferno, o qual se atravessa sem molhar os tornozelos.


Para os canceladores é possível avaliar uma obra de arte sem a entender, sem a ler minuciosamente e inclusive entender todas as chaves de leitura anteriores e aberturas posteriores que há nela. Os canceladores são mestres nas orelhas de livro e nas análises prévias, e se gabam de saberem sobre absolutamente tudo, sem precisarem estudar com cuidado absolutamente nada.


O terceiro erro (ou seria forçamento na análise dos lacradores) é que pesam o hipertexto aleatoriamente para o lado que querem. Assim, quando gostam de funk, passam pano para todas as letras sexistas, misóginas e machistas, alegando uma defesa anti-elitista do funk (que seria uma música da favela, padecente de todo o preconceito do mundo e, com isto, com liberdade para falar o que quiser), mas acentuam todo e qualquer hipertexto contrário na análise de sambas da década de 50 e 60, os retirando de seu contexto social e fingindo que o samba não sofreu (e muito mais fortemente que o funk, já que os sambistas eram presos apenas por participar de uma roda de samba) o preconceito social. Lacradores não tem parâmetros, utilizam sua lupa para a direção que querem e fazem um tipo de análise prévia que é extremamente desonesta intelectualmente. Forçam a análise desprezando tudo que seja contra suas conclusões, e realçando aspectos negativos de uma obra, escola literária ou movimento musical que queiram incluir no novo index probitorium desta inquisição vermelha. Se não disso der certo, basta rotular ou xingar quem não concorda contigo (velha tática da falácia de autoridade extrema invertida, reduzindo o adversário a um reacionário defensor do que há de pior na humanidade) para ganhar o debate sem precisar debater e aclarar a própria falta de conhecimento ou intimidade com a estética da obra de arte.


É bom lembrar que os comunistas e socialistas nunca foram muito bons quando tentaram circunscrever a arte em algum limite. Foram melhores criadores de movimentos. O obreirismo e o realismo soviético foram escolas toscas de arte que não nos legaram absolutamente nenhum escritor insigne. Todos os grandes escritórios socialistas e comunistas foram os que renegaram o patrulhamento tosco desta redução da literatura a um panfleto de uma religião reificada pseudocomunista. O obreirismo e o realismo soviético já perseguiram e proscreveram o surrealismo (um movimento estético comunista) e foram responsáveis pelo pesadelo patrulheiro na vida de excepcionais escritores como Cortázar e Neruda.


Os canceladores/lacradores, de verdade, nem gostam muito de arte. Preferem o BBB. Aliás, defendem com unhas e dentes que o BBB é manifestação artística “popular”. Confundem cultura popular, que tem um longo histórico de enraizamento nas lutas e manifestações do povo, com a receita de bolo e de produção em série carimbada pela mídia. Nunca se deram ao trabalho de ler Adorno, Guy Debord ou Walter Benjamin e defendem a ditadura da imagem única e o liquidificador cultural genocida (da diversidade das manifestações populares) da sociedade do espetáculo como “verdadeira cultura popular”. Embora nunca tenham se debruçando sobre o tema da cultura popular, da sociedade do espetáculo e da reprodutividade técnica da obra de arte no e pelo capitalismo e da apropriação, da esterilização das formas populares pela indústria cultural, eles creem que basta chama o adversário de “elitista” e a “alienado” para se tornar popular e antenado. Falar de astrologia e BBB os torna pops e antenados. Uma esquerda que fale de resistência cultural e que denuncie que, no fundo, eles defendem a estética do inimigo, esta também tem que ser ridicularizada e cancelada.


Para a esquerda BBB canceladora defender a estética do inimigo de classe através da indústria cultural e da sociedade é ser popular. Não à toa só corremos atrás do próprio rabo não pautando mais a cultura da sociedade. Ficamos reduzindo a adoradores tolos dos produtos pasteurizados da ditadura da imagem única. Os lacradores canceladores são, no fundo, os amantes sofisticados da globalização imperialista e não tem nenhuma linha de resistência contra ela.


Gostam de cancelar a arte e tem pouca ou quase nenhuma leitura de poesia estética. Mas opinam livre e corajosamente sobre as 2 coisas. Podem não entender nada sobre Bossa Nova, mas em 2 minutos condenam heterocronicamente o movimento como uma música da elite da Zona Sul e de velhos babões sexistas. Na verdade, toda a análise dos lacradores canceladores se resume a rotulações e condenações apriorísticas, e movimentos polifônicos, e que permanecerão para a posterioridade, quando, enquanto os lacradores/canceladores de hoje serão ridicularizados como o são os obreiristas da década de 40 e 50.


O quarto erro é o heterocronismo. Lacradores e canceladores são os fiscais da moral da humanidade, para além do tempo e do espaço. Receberam uma missão divina do Deus da Polinésia, e agora reclassificam toda a cultura debaixo da moral e da visão do século XXI. Ler a Ilíada e a Odisseia com os olhos de hoje é reduzir um tesouro imemorial a um apanhado de assassinatos e a um grande genocídio. Sem entender nada de metáforas e simbologia, reduzem toda a obra de arte a um panfleto político que tem que pedir permissão aos dias de hoje para ser validado ou esquecido. 


Imagino um público de canceladores/lacradores assistindo Saló de Pasolini. Os imbecis reduzirão à obra à apologia do assassinato e do estupro?


Por último, canceladores e lacradores cometem o mesmo erro do “obreirismo” comunista, do “realismo soviético”, do “ano zero” da revolução cultural chinesa ou mesmo da revolução francesa. São a-históricos. Pensam que o mundo começou hoje e que seus valores são atemporais. Eles são apenas fruto de uma cultura histórica como todos aqueles que eles condenam no passado, com tanta ênfase, continuarão a ser gigantes, eles, os canceladores, entretanto, serão lembrados apenas como uma pequena igrejinha que tentava ser famosa lacrando na internet.


*Roberto Ponciano é professor