Artigo

A prisão

Postado dia: 22/03/2022 - 00:00

Escolhi como área temática para meu mestrado em psicologia a população em situação de rua em Salvador. Tenho percorrido os territórios onde estão localizados este segmento para conhecer a realidade e ao mesmo tempo fazer as entrevistas. Depois de entrevistar um casal morando no viaduto São Raimundo, no Politeama, recebi a notícia de que Antônio (nome fictício), o companheiro de Joana (nome fictício) havia sido preso em flagrante. 


Quando realizei a entrevista, ele me pediu que eu verificasse a situação dele na justiça. Encaminhei para a Defensoria Pública da Bahia a solicitação e fui informado que não tinha sido encontrado no sistema nacional nenhum processo com mandado de prisão. No outro dia fui até o viaduto repassar esta informação.


Chegando no viaduto, por volta das 12 horas, o casal se encontrava dormindo com as filhas e uma delas estava sentada acordada. Pensei em fotografar, mas optei por apenas manter o registro na minha memória. A criança atenta parecia está de prontidão, vigiando o casal e as irmãs. Ela me perguntou: quer que eu acorde eles? Respondi que não necessitava. Mesmo assim ela acordou a mãe e Antônio também se levantou.


Passei as informações e perguntei se eles estavam precisando de alguma coisa. Ele me falou que estava com fome. Viabilizei a alimentação.  Falei que qualquer novidade eu voltaria a informar. No outro dia Joana me passou uma mensagem dizendo que Antônio teria sido preso em flagrante. Segundo ela, o policial passou lá onde deixaram uma sacola dizendo que ele teria furtado.  


Procurei a Defensoria novamente e fui informado que não constava nada na área crime. Apenas um mandado de prisão pelo não pagamento da pensão alimentícia do relacionamento anterior. Joana tem passado mensagens para mim solicitando apoio para localização de Antônio: onde está preso, em que condição, quais os desdobramentos? A situação está entregue a Defensoria Pública da Bahia, que tem um papel fundamental na defesa dos mais necessitados.


Assim fiquei a me perguntar. Como um morador em situação de rua, em extrema vulnerabilidade - digo isto porque fui verificar in loco - pode pagar pensão alimentícia? O remédio para cobrir a necessidade da ex-companheira ou o suposto furto seria de fato a prisão de Antônio? A penitenciária? Fica a reflexão.


*Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ