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Maiores são os poderes do povo

Postado dia: 13/04/2022 - 00:00

Os episódios dos dias 6 e 7 de abril (sexta e sábado) de 2018, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - refugiado dentro do Sindicato dos Metalúrgicos - e o país inteiro aguardavam o desfecho do cumprimento ou não da ordem de prisão, ficarão na memória como o maior ultraje já sofrido pelos trabalhadores ao longo da vida republicana.

 

O seu histórico e monumental discurso no palanque, prestes a deixar a vida pública para se entregar aos seus algozes, revela o tamanho desse personagem ímpar que atravessou a História do Brasil atual, contribuindo decisivamente na melhoria de vida de milhões de famílias de baixa renda. Mas, lamentavelmente, seu governo de centro-esquerda, incorreu também numa longa série de polémicos aspectos, que se revelaram graves erros estratégicos:  conciliação de classes, alianças esdrúxulas com representantes da oligarquia, abandono de diversos pressupostos programáticos conforme a chegada e permanência no Poder, crença na legalidade da burguesia, etc. Fora isto, uma única, intransferível e excludente virtude que responde por quatro letras, destacou-se sempre por cima de todo: Lula. 


Apesar do horror que muitos nutrem  - algo também presente no próprio e variado campo da esquerda -, por líderes comandando processos reformistas ou revolucionários, messias apontando caminhos luminosos, pais da Pátria oferecendo dádivas aos filhos descamisados, ao invés de domesticar as massas ao gosto da direita ou serem elas próprias, as massas, decidindo seus destinos largamente discutidos de forma coletiva, a irrupção deste personagem singular proveniente dos grotões do Brasil profundo, hábil, verborrágico, impetuoso, certeiro e impossível de vencer em qualquer debate, surgido no fim dos anos 70, nos palanques operários das greves do ABC paulista, peitou, sofreu e decidiu os destinos do trabalhador brasileiro durante quatro décadas.


Mas tudo tem seu preço e, já em funções de governo, a longa primavera do Brasil, um país de Todos (2003 - 2016), engenharia política traçada com históricos expoentes de diversos movimentos sociais reunidos no PT no início dos anos 80, foi perdendo suas flores nos ásperos corredores da política, com próprios e estranhos, incorporados na promiscua convivência institucional em nome da governabilidade. Nessa vida familiar, a direita percebeu a brecha para retomar o chicote e arquitetou a queda, nas minucias do contrato social, no início do governo Dilma, imediatamente após a segunda vitória da sucessora do Lula, em 2014. E veio um duro Golpe em 2016. A partir dali a mídia empresarial e o Judiciário seletivo aceleraram seus trabalhos para consumar sua obra de relojoaria, amparado numa legalidade que reprime segundo a conveniência do sistema: excluir Lula das eleições de 2018.


Portanto, nesses dois dias históricos de Desobediência Civil citados mais acima, - deveria se entregar na sexta feira 6 às 17 horas e isto só aconteceu no dia seguinte no fim de tarde - encerrados com um emocionante discurso e a posterior e espontânea rebelião da militância que não queria em hipótese alguma concordar com a decisão de se entregar a Polícia Federal, decisão da cúpula do Partido e dos seus advogados, ou tal vez do próprio Lula. Esta decisão, de claras consequências futuras, seja de quem tenha sido, jamais poderia ir de encontro àqueles que estavam colocando o corpo, protegendo o líder e exigindo dele resistência, ordem popular que não foi obedecida - mandar obedecendo é regra noutros contextos como a Bolívia por exemplo - e que poderia, de acordo ao número de pessoas que certamente cresceria com o passar do tempo e talvez dos dias, uma blindagem épica e um fato político local e internacional de confrontação direta às oligarquias do país e do continente. Algo muito mais arriscado, é claro, do que especular eleitoralmente jogando as últimas fichas, se ainda houver, nas leis do Estado.


Todavia, depois de afirmar que cumpriria o mandado do juiz, e diante do clamor geral de desaprovação, Lula declarou, nos momentos finais do seu testamento político no palanque, que todos, os que ali estavam e os que acompanhavam a transmissão pelo país afora, que a partir desse momento, seriam lutadores sociais como ele, seriam Lulas, para dar continuidade ao seu legado. Mas esses novos Lulas, no calor da hora, queriam mais, queriam resistir nos portões do Sindicato à prisão do maior líder popular contemporâneo deste pais, mas não puderam colocar em prática essa cerimônia de batismo coletivo. Para isso, teriam que passar por cima dele, matar freudianamente o pai, ir além de Lula, e lançar aquele grito que ainda ecoa, desde o emblemático ano ditatorial de 1964, no filme de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol: “Maiores são os poderes do povo! ” 
 

*Carlos Pronzato é cineasta/documentarista e escritor