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Carlos Gomes, D. Pedro II e Garibaldi

No artigo, o cineasta, diretor teatral, poeta e escritor Carlos Pronzato faz análise dos experimentos socialistas do fim do século XIX.

Falar hoje em experimentos socialistas do fim do século XIX não pareceria apropriado. Mas é justamente pelo oposto que a tentativa cobra importância. Já o dizia o escritor argelino e anarquista (ou socialista libertário) Albert Camus (1913 - 1960): “O obstáculo é o que faz avançar”. Sendo assim, avancemos nesta aparente contradição de viajar ao tempo dos três personagens do título do artigo e verifiquemos qual foi o motivo do laço que congregou num mesmo episódio um músico, um imperador e um guerrilheiro italiano.


A resposta é a Colônia Cecília, comuna anarquista idealizada e concretizada entre 1890 e 1894 em Palmeira, a 80 quilômetros de Curitiba, pelo agrônomo e veterinário italiano Giovanni Rossi (1859 -1943). A criação da Colônia, considerada talvez a única de ideário anarquista na América do Sul - há o registro de uma outra colônia artística comunitária no Chile, entre os anos 1904 a 1905, baseada nos princípios filosóficos libertários de Liev Tolstoi (1828 - 1910) - se inscreve na volumosa migração europeia, que passava por imensas dificuldades econômicas, em direção ao Brasil e outros países da América.


A bordo do navio Cittá di Roma - há o livro homônimo de Zélia Gattai e também o famoso Anarquistas, Graças a Deus, da mesma autora, ela mesma descendente de imigrantes da Colônia Cecília -, o grupo de Rossi embarca no porto de Génova em fevereiro de 1890.
No livro de Afonso Schmidt (1890 - 1964), Uma Aventura Anarquista na América, de 1942, lemos que Rossi mostra o plano ao seu amigo, o compositor Carlos Gomes (1836 - 1896) e este o incentiva a propor a ideia ao Imperador que estava a caminho da Itália. D. Pedro II (1825 - 1891), interessado na colonização do Brasil, oferece terras ao Rossi, 300 alqueires. A instauração da República, posteriormente, não reconheceu as concessões a estrangeiros.


A utopia dos colonos não decai e adquirem as terras com o fruto do seu trabalho agrícola. Os mais de 250 colonos edificam barracões coletivos e individuais, celeiros, moinhos, estábulos, escola e consultório médico. Instauram propostas coletivistas e inclusive a liberdade nas relações, o amor livre, indo de encontro à principal instituição burguesa: o casamento. A proximidade de uma colônia de poloneses, fervorosos católicos, cria hostilidade geral na região, inclusive das autoridades, que leva, depois de diversos conflitos de todo tipo, ao fim da Colônia. Na peregrinação a Curitiba um grupo funda a Sociedade Giusseppe Garibaldi. No Memorial Colônia Cecília, inaugurado no local em 2016, sobressai uma frase de Giovanni Rossi: “Independente dos resultados concretos dos seus sonhos, são os ideais que movem a máquina do mundo, empurrando a humanidade para frente”.


* Carlos Pronzato é cineasta, diretor teatral, poeta e escritor, sócio do IGHB (Instituto Geográfico e Histórico da Bahia)