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O futuro do trabalho também se decide nas urnas

Neste artigo, o autor descorre sobre como a campanha salarial começa muito antes da mesa de negociação. Ela se constrói na organização da categoria, na defesa da Convenção Coletiva e também nas escolhas feitas nas urnas. Em um cenário de lucros recordes dos bancos e aumento da sobrecarga de trabalho, fortalecer a representação dos trabalhadores é essencial para proteger direitos e evitar retrocessos.

Costuma-se dizer que a campanha salarial começa quando sindicatos e empregadores sentam à mesa de negociação. Discordo. A campanha começa muito antes, quando a sociedade define, pelo voto, qual projeto de país deseja construir e quem escreverá as leis que regulam as relações de trabalho.

Os bancários conhecem bem essa realidade.

 

Nossa Convenção Coletiva de Trabalho, composta por 143 cláusulas, não nasceu da boa vontade dos bancos. É fruto de décadas de organização sindical, negociação coletiva e mobilização permanente. Cada cláusula representa uma conquista arrancada pela força coletiva da categoria.

 

Mas a realidade mudou. O fim da ultratividade tornou cada negociação ainda mais estratégica. Hoje, não discutimos apenas novos direitos; somos chamados a defender conquistas que antes pareciam consolidadas. Em outras palavras, passamos a negociar sob a sombra da possibilidade de retrocessos.

 

Ao mesmo tempo, o setor bancário atravessa um dos períodos mais lucrativos de sua história. A digitalização ampliou a produtividade, reduziu custos operacionais e elevou a rentabilidade das instituições financeiras. Contudo, os ganhos dessa transformação não foram distribuídos de forma equilibrada.

 

Enquanto os lucros crescem, agências são fechadas, postos de trabalho são eliminados e as equipes remanescentes convivem com uma rotina marcada pela sobrecarga, pelo acúmulo de funções e por metas cada vez mais agressivas. O adoecimento físico permanece presente, mas é a saúde mental que hoje revela a face mais cruel desse modelo de gestão. Ansiedade, depressão, síndrome do pânico e burnout deixaram de ser casos isolados para se tornarem um problema coletivo.

Essa realidade não é resultado apenas das decisões dos bancos. Ela também é consequência das escolhas feitas no campo político.

 

Reformas que flexibilizaram direitos trabalhistas, ampliaram a terceirização e modificaram as regras da Previdência foram aprovadas pelo Congresso Nacional. Isso nos impõe uma reflexão necessária: se os trabalhadores representam a imensa maioria da população brasileira, por que seus interesses nem sempre encontram a mesma força nas instituições responsáveis por elaborar as leis?

 

Não se trata de dizer em quem votar. Trata-se de compreender que não existe neutralidade quando o assunto é o mundo do trabalho. Cada voto fortalece um projeto de sociedade. Cada parlamentar eleito contribui para ampliar ou restringir direitos, fortalecer ou enfraquecer a negociação coletiva, valorizar ou precarizar o trabalho.

 

A campanha salarial termina com a assinatura da Convenção Coletiva. A luta pela valorização do trabalho, porém, é permanente. Ela continua nas assembleias, nos locais de trabalho, na organização sindical e, sobretudo, na consciência de que democracia também se constrói quando o trabalhador compreende que seu voto pode proteger aquilo que levou décadas para ser conquistado.

Defender a Convenção Coletiva é defender direitos. Defender a democracia é garantir que esses direitos continuem existindo para as próximas gerações.

 

Amarildo Menezes é diretor Executivo do Sindicato dos Bancários da Bahia e diretor e Secretário do DIEESE-BA.