Meninas são maioria entre vítimas de violência no Brasil

A realidade é que antes o país não tinha estrutura para a ampliação das notificações, que durante muito tempo permaneceu escondida pelo silêncio e pela falta de condições para denunciar e proteger as vítimas.

Por Julia Portela

Ser mulher no Brasil é conviver, desde cedo, com uma violência que não dá trégua. Meninas e adolescentes representam 62% das vítimas de violência contra crianças e adolescentes notificadas no país entre 2020 e 2025, segundo levantamento da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), com base em dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde.

 

Entre as agressões, a violência sexual aparece no topo, presente em 34% das 685.529 notificações registradas no período. Negligência e abandono (33,3%) e agressão física (32,9%) também estão entre os principais tipos de violência.

 

O cenário se agrava quando se olha para a evolução dos registros. As notificações passaram de 73.635, em 2020, para 165.413 em 2025, um salto de 125% em seis anos. A própria SPDM aponta que parte desse crescimento pode estar ligada à maior capacidade dos serviços de saúde e da rede de proteção de identificar e registrar os casos atualmente. A realidade é que antes o país não tinha estrutura para a ampliação das notificações, que durante muito tempo permaneceu escondida pelo silêncio e pela falta de condições para denunciar e proteger as vítimas.

 

Os adolescentes concentram 43% das notificações, com aproximadamente 249 mil registros. Crianças de até seis anos representam outros 37%, com cerca de 256,6 mil casos, enquanto a faixa entre 7 e 12 anos incompletos reúne 20%, aproximadamente 135 mil notificações.

 

Quando meninas com tanta vulnerabilidade aparecem como maioria entre as vítimas, não se trata de uma estatística isolada, mas do reflexo de uma sociedade que melhorou, mas ainda falha na proteção à infância e adolescência.