Bilhões para o topo. Pressão para ponta
Agora, no caminho inverso, da sala da diretoria para a agência, onde o bancário abre o sistema pela manhã e já encontra a meta na tela, para vender seguro, cartão de crédito, consórcio, previdência e que no fim da tarde já está pensando no resultado do dia seguinte.
Por Rose Lima
Tem uma conta que vale muito a pena fazer na campanha salarial. De um lado, os executivos dos bancos que podem receber milhões por ano entre salário, bônus, ações e remuneração variável. Do outro, os bancários submetidos a metas cada vez mais agressivas, cobrança diária por resultados, pressão para vender produtos e o medo constante de não entregar o número e, com isso, colocar o emprego em risco.
A diferença não é pequena. É gigantesca. Dados divulgados pelas próprias organizações e entregues à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) mostram que a remuneração anual prevista para 2026 nas diretorias de Itaú, Santander, Bradesco e Banco do Brasil chega, em média, a R$ 10,3 milhões por diretor. O valor equivale a cerca de 120 vezes a remuneração anual de um escriturário, considerando salário, 13º, férias, tíquetes e PLR.
E quando se observa os principais bancos privados, os números são ainda mais impressionantes. No Itaú, o CEO Milton Maluhy Filho aparece com remuneração anual na casa dos R$ 67,7 milhões. No Santander, Mario Leão aparece com cerca de R$ 30,5 milhões, enquanto Marcelo Noronha (Bradesco), chega a R$ 26,4 milhões.
Agora, no caminho inverso, da sala da diretoria para a agência, onde o bancário abre o sistema pela manhã e já encontra a meta na tela, para vender seguro, cartão de crédito, consórcio, previdência e que no fim da tarde já está pensando no resultado do dia seguinte, e não entregá-lo, em muitos casos, pode significar perda de função ou até rota de desligamento, a realidade é bem diferente.
Esse trabalhador produz o resultado e alimenta toda a estrutura. Mas, na hora de dividir o lucro, a lógica muda. A PLR também revela a desigualdade. A CCT (Convenção Coletiva de Trabalho) permite que os bancos distribuam até 15% do lucro líquido aos trabalhadores por meio da Participação nos Lucros e Resultados. Em 2025, no entanto, os três maiores privados distribuíram, em média, apenas 5,9% dos lucros. Ou seja: existe uma diferença enorme entre aquilo que os bancos conseguem lucrar e aquilo que efetivamente chega aos trabalhadores. E essa discussão acontece justamente quando a categoria negocia salários, PLR, VA, VR e condições de trabalho.


