ONU divulga guia contra a machosfera
Além das mudanças de comportamento, o guia recomenda atenção ao uso de expressões como “redpillado”, “alfa”, “beta”, “chad”, “femoids”, entre outros termos costumeiramente utilizados para desumanizar mulheres e estabelecer hierarquias entre os homens.
Por Juliana Ambrozi
Os discursos da machosfera atingem milhões de jovens através das redes sociais e têm contribuído com o crescimento de comunidades misóginas e o avanço de ideias machistas entre crianças e adolescentes. Criado para orientar pais e responsáveis a reconhecer os primeiros sinais de contato dos filhos com esse tipo de conteúdo, a ONU lançou o guia “No mesmo time”. O manual também explica como a misoginia chega aos jovens e o que os responsáveis podem fazer para impedir que os discursos se tornem parte de sua visão de mundo.
Levantamento do NetLab, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), identificou 123 canais brasileiros de conteúdos misóginos ativos no YouTube, que somam mais de 23 milhões de inscritos. Outro estudo, realizado pelo Ipsos em parceria com o King’s College London, mostrou que quase um terço dos homens da Geração Z acredita que a esposa deve obedecer ao marido.
Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, mais de 98% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos acessam a internet pelo celular. Para a ONU Mulheres e Unicef, o ambiente digital se tornou mais do que um espaço de entretenimento, é também onde os jovens buscam por referências e identificação. Portanto, para freiar a disseminação de conceitos misóginos online, é preciso entender como esses espaços funcionam.
A "machosfera" não é uma organização unificada nem um movimento centralizado. É composta por diversos fóruns online, grupos em redes sociais, canais de vídeo e outras comunidades digitais que abordam temas como masculinidade, relacionamentos e desenvolvimento pessoal, todos unidos por uma característica comum: a ideia de que as frustações masculinas são consequências dos direitos conquistados pelas mulheres.
O contato dos adolescentes com a machosfera normalmente é introduzido por influenciadores que falam, inicialmente, sobre exercícios físicos, religião, autoajuda e empreendedorismo, mas gradualmente passam a defender ideias de superioridade masculina, controle sobre mulheres e autossuficiência extrema disfarçados de conselhos inofensivos de autodesenvolvimento.
Estes conteúdos deixaram de existir apenas em fóruns obscuros da internet e passaram a ser compartilhados em plataformas de fácil acesso entre os jovens, como TikTok, YouTube e Instagram. O que explica porque muitos adolescentes entram em contato com discursos misóginos sem buscá-los diretamente.
Além das mudanças de comportamento, o guia recomenda atenção ao uso de expressões como “redpillado”, “alfa”, “beta”, “chad”, “femoids”, entre outros termos costumeiramente utilizados para desumanizar mulheres e estabelecer hierarquias entre os homens. Segundo a ONU Mulheres e o UNICEF, muitos adolescentes repetem essas palavras sem compreender plenamente o significado. Nestes casos, recomenda-se perguntar onde ouviram a expressão e o que acham que ela significa, bem como explicar por que a linguagem alimenta o preconceito e a violência de gênero.
O guia reforça que, além do diálogo dentro de casa, o enfrentamento à misoginia no ambiente digital não depende apenas das famílias. Durante os primeiros 100 dias do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, o governo federal anunciou uma série de medidas para combater a violência de gênero, inclusive no ambiente digital. Entre elas, destacam-se um decreto que estabelece obrigações para empresas de tecnologia e mecanismos de responsabilização, e uma iniciativa específica voltada à prevenção e ao combate à violência online contra as mulheres.
A iniciativa abrange medidas como o monitoramento eletrônico de agressores, campanhas de conscientização e o reforço da proteção às vítimas, ressaltando que o enfrentamento da misoginia exige uma abordagem coordenada que envolva famílias, escolas, o Estado e as plataformas digitais.


