Lucro às alturas, povo no calor

O modelo de cidade imposto pelo capital imobiliário escancara suas consequências diante da crise climática. Não se trata de estética ou modernização, mas de sobrevivência.

Por Julia Portela

O avanço descontrolado da especulação imobiliária nas grandes cidades tem aprofundado um problema que já impacta diretamente na população mais vulnerável: o aumento das temperaturas nos centros urbanos. A lógica do lucro, que orienta a expansão de grandes empreendimentos, ignora os efeitos ambientais e transforma o desenho das cidades, criando os chamados “cânions urbanos”, corredores formados por prédios que alteram a circulação do vento e intensificam o calor, produzindo um microclima sufocante.

 

Estudo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) evidencia a gravidade da situação. A pesquisa foi realizada no "ponto Emasa" em Balneário Camboriú (SC), onde as edificações chegam a bloquear 78,9% do horizonte, aprisionando o calor entre estruturas de concreto. Essa barreira física impede a dissipação térmica e agrava as condições de vida nas ruas, sobretudo para quem depende do transporte público e enfrenta longas jornadas, exposto ao clima extremo.

 

A pesquisa também revela a desigualdade na incidência solar: enquanto regiões menos verticalizadas recebem cerca de 11 horas de sol, esses corredores urbanos registram pouco mais de 4 horas e meia. O chamado Fator de Visão do Céu mostra como o acesso ao céu e, portanto, à regulação térmica natural é drasticamente reduzido. O resultado é um ambiente que demora a aquecer durante o dia, mas retém calor à noite, tornando o cotidiano ainda mais exaustivo para a população.

 

O modelo de cidade imposto pelo capital imobiliário escancara suas consequências diante da crise climática. Não se trata de estética ou modernização, mas de sobrevivência. A ausência de planejamento urbano voltado ao bem-estar coletivo agrava desigualdades e penaliza quem vive do trabalho. Enfrentar o calor extremo exige romper com essa lógica, priorizando cidades que respirem, com áreas verdes não privatizadas e planejamento que respeite a vida coletiva.