O custo social da automação

Nunca os grandes bancos em atividade no país lucraram tanto. Nunca também fecharam tantas agências, reduziram tantos postos de trabalho e transferiram tão rapidamente o atendimento para plataformas digitais.

Por Rose Lima

Nunca os grandes bancos em atividade no país lucraram tanto. Nunca também fecharam tantas agências, reduziram tantos postos de trabalho e transferiram tão rapidamente o atendimento para plataformas digitais.

 

BB, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander registraram, em 2025, lucro líquido de R$ 124 bilhões juntos. O resultado reforça a elevada rentabilidade do setor, ao mesmo tempo em que evidencia um movimento silencioso de reestruturação que altera profundamente a relação entre bancos e sociedade.

 

O discurso é o da modernização. Aplicativos, inteligência artificial e internet banking reduziram custos, aceleraram operações e ampliaram a eficiência. Mas, tudo isso com alto preço social.

 

Nos últimos 10 anos, o Brasil perdeu cerca de 8,5 mil agências bancárias, redução de 37% da rede física. Em apenas um ano (2024/2025), foram fechadas 1.345 unidades de atendimento. A lógica é simples: menos estruturas físicas, menos funcionários e mais serviços digitais.

 

O problema é que nem todos conseguem acompanhar essa velocidade. Segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), cerca de 42 milhões de brasileiros - 29% da população - não utilizam serviços digitais. Entre eles estão justamente os grupos mais vulneráveis: idosos, pessoas de baixa renda e moradores de regiões onde a internet ainda é precária.

 

Para essa parcela da população, o fechamento de uma agência significa percorrer distâncias maiores para sacar benefícios, resolver problemas, negociar dívidas ou simplesmente falar com um atendente. O custo da transformação, nesse caso, deixa de ser das empresas e passa a ser do cidadão.

 

A exclusão digital também revela desigualdades territoriais. Enquanto 94,7% dos moradores das áreas urbanas têm acesso à internet, nas zonas rurais o índice cai para 84,8%. Entre os idosos, aproximadamente 30% sequer possuem acesso à rede, tornando a digitalização compulsória uma barreira quase intransponível. Nesse cenário, os bancos públicos passaram a exercer um papel ainda mais importante.

 

Enquanto os bancos privados reduziram mais da metade da rede física desde 2015 (menos 53%), BB e Caixa diminuíram as redes em 17%. Hoje, 59% de toda a estrutura física bancária pertence às instituições federais, responsáveis por sustentar boa parte do atendimento presencial no país, especialmente nas regiões periféricas e nos municípios menores.