Mídia nativa, um desserviço ao país

A publicação da Folha de S.Paulo do último sábado (21/02), intitulada Brasileiro trabalha menos que a média mundial, presta um desserviço ao trabalhador ao destacar, em momento decisivo do debate sobre a escala 6x1 no Congresso, dados que isolam a média de horas trabalhadas sem considerar a realidade social do país. 

Por Itana Oliveira

O Brasil, último país do Ocidente a abolir a escravidão, ainda hoje parece forçado a provar que trabalha. Nesse contexto, a publicação da Folha de S.Paulo do último sábado (21/02), intitulada Brasileiro trabalha menos que a média mundial, presta um desserviço ao trabalhador ao destacar, em momento decisivo do debate sobre a escala 6x1 no Congresso, dados que isolam a média de horas trabalhadas sem considerar a realidade social do país. 


A matéria se baseia em um levantamento feito com base em dados do Banco Mundial, ou seja, o centro do capitalismo, protagonista da exploração do trabalhador em favor do aumento do capital.


Segundo o tal estudo, o brasileiro trabalha, em média, 40,1 horas semanais, ante 42,7 horas da média mundial. A divulgação do dado ocorre justamente quando avança na Câmara a discussão sobre o fim da escala 6x1, regime que concentra a vida pessoal do trabalhador em um único dia de descanso e atinge milhões de mães, pais e jovens inseridos desde cedo na realidade exaustiva do trabalho. 


A estimativa é de que mais de 36 milhões de trabalhadores formais, cerca de 60% do total no país, estejam submetidos ao modelo. Experiências internacionais indicam direção oposta à sugerida pelo alarmismo implícito na comparação. Pesquisa conduzida pelo instituto Autonomy, na Inglaterra, entre junho e dezembro de 2022, com 61 empresas, testou a semana de quatro dias sem redução salarial. Ao final, 92% das participantes decidiram manter a jornada reduzida, sem prejuízo à produtividade. 


Projetos semelhantes ocorreram nos Estados Unidos, Alemanha, Suécia, Chile e Bélgica, sendo que estes dois últimos avançaram em medidas concretas para permitir semanas comprimidas ou jornadas reduzidas. Ao ignorar as evidências acumuladas, a reportagem reduz o debate a uma comparação numérica descolada das condições de vida e da baixa média salarial brasileira, uma das menores do mundo. 


A discussão sobre jornada não se limita a indicadores econômicos: envolve exaustão, dignidade e qualidade de vida. Ao tratar o tema sob viés restrito, a matéria desinforma em vez de contribuir para um debate público qualificado. 
 

Relacionadas