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Baile de Carnaval

O artigo de Frei Betto é uma reflexão poética sobre o Carnaval como celebração espiritual e humana.

Neste Carnaval, despirei a fantasia da vaidade e entrarei no corso dos que buscam os bailes do espírito. Desfilarei na Via Láctea cavalgando um asteroide e aplaudirei o rodopio de Gaia, a porta-bandeira, sob os olhos dourados do mestre-sala, o Sol. Espalharei pelo teto do céu confetes de estrelas, enquanto os cometas estenderão serpentinas brilhantes.


Nada de me encharcar de álcool, pois me embriagarei com a euforia dos que descem dos morros para exibir com pompas suas escolas de ilusões. Contemplarei a alucinada ginga dos passistas que, no resto do ano, driblam as agruras da vida sem que batam palmas à sua teimosia.


Neste Carnaval, arrancarei pelas ruas as máscaras dos soberbos que integram o bloco ácido dos arautos da verdade. Pintarei em seus rostos amargurados a curva ascendente de um sorriso para livrar-me de tão conservadoras tristezas. Gravarei corações enamorados nos muros e farei florir na copa das árvores botões de insensatez.


Engrossarei uma batucada tão vibrante a ponto de proteger-me dos ruídos insidiosos e dos discursos forjados na retórica das gralhas. Tomarei em mãos a cuíca e, de seu soluço agônico, arrancarei a cadência capaz de impelir meus passos rumo ao futuro. 


Não irei aos bailes da cegueira, onde os olhos se recusam a espelhar a felicidade alheia. Entrarei na roda de sorrisos ingênuos e darei as mãos aos corações trepidantes daqueles que jamais encerram o Carnaval dentro de si. Dançarei o frevo altissonante dos ébrios de utopias e seguirei o bloco que semeia êxtases nas veredas do deserto. 


Neste Carnaval, meu samba não será de uma nota só, pois tanto riso e tanta alegria haverão de despertar, no mais íntimo de cada um de nós, o pierrô e a colombina apaixonados. 


Espalharei perfume para espantar em volta todos os odores que fazem minguar as flores. E me somarei ao cordão dos que ardilosamente entoam cantos de esperança. 


Não darei ouvidos ao reco-reco dos que insistem em ensurdecer com seus lamentos o grito de Carnaval. Nem abrirei alas a quem impede a passagem do porvir. Ostentarei na passarela a alegoria de promissoras conquistas e preencherei todos os quesitos de um amor inefável, não aquele que é eterno enquanto dura, mas sim o que dura enquanto é terno. 


Desfantasiado de esbelto, exibirei contente pelas ruas as rugas de meu rosto, o brilho prateado de meus cabelos brancos e a minha doce feiura. Entre tanta beleza virtual, esculpida à ponta de bisturi, concorrerei ao prêmio de originalidade.


Deixarei dançar a flacidez de minhas carnes e, após passar a suntuosa escola de divas alouradas e apolos musculosos, catarei em um saco de lixo a vergonha de não suportarem a esplêndida maquiagem que o tempo delicadamente imprime a quem conhece a arte de envelhecer. 


Na manhã de Quarta-Feira de Cinzas, arrancarei minha fantasia de arlequim e carregarei solitário meu pandeiro. Com as pernas mergulhadas no lago da praça, lançarei na água uma a uma as argolas, para vê-las flutuar como estrelas de prata. Em seguida, farei o pandeiro boiar como um barquinho. 


Então, revestido da criança que me habita, embarcarei no trio elétrico rumo aos confins da galáxia, banhado de estrelas, confetes que Deus asperge em seu baile infindável, para o qual a vida me conduz qual sedutora anfitriã de um Carnaval no qual só entra quem rasga a fantasia.


* Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto, é frade dominicano, jornalista e escritor