Desmonte bancário atinge milhões no Brasil

Enquanto os grandes bancos seguem anunciando lucros bilionários e apostando na migração para o digital como sinônimo de “modernização”, a realidade nas ruas é outra: agências fechadas, unidades remanescentes superlotadas, trabalhadores sobrecarregados e clientes obrigados a viajar quilômetros para conseguir atendimento básico.

Por Itana Oliveira

Enquanto os grandes bancos seguem anunciando lucros bilionários e apostando na migração para o digital como sinônimo de “modernização”, a realidade nas ruas é outra: agências fechadas, unidades remanescentes superlotadas, trabalhadores sobrecarregados e clientes obrigados a viajar quilômetros para conseguir atendimento básico.


Na Bahia, o encolhimento da rede física é estrutural e acelerado. Em menos de 10 anos, o estado perdeu 339 agências bancárias, uma redução de 31%, caiu de 1.095 unidades em 2016 para apenas 756 em novembro de 2025. Os dados expressam que o desmonte não é pontual, tampouco exclusivo de instituições privadas.


Entre outubro de 2023 e julho de 2025, foram fechadas 75 agências de diversos bancos no Estado, com apenas seis aberturas, deixando um saldo negativo de 69 unidades. No mesmo período, 19 municípios ficaram sem nenhuma agência bancária e 34 cidades perderam a única unidade Bradesco que existia. 


O colapso não para por aí. Dados do Sindicato dos Bancários da Bahia mostram que 279 mil pessoas passaram a viver em cidades sem banco, e 756 mil baianos foram diretamente afetados pelos fechamentos. Em várias regiões do interior, moradores percorrem mais de 50 quilômetros para chegar a uma agência. Em Olindina, por exemplo, onde 21% da população têm mais de 55 anos e a internet é precária, o fechamento da agência deixou a população dependente de pontos improvisados para saque.


Nas grandes cidades, o problema assume outra forma: superlotação. Em Salvador, o Itaú fechou as agências de Brotas, Cabula e Imbuí em julho do ano passado. Com isto, 73 mil clientes foram redistribuídos para apenas 11 unidades restantes na capital. Há casos de pessoas que agora precisam se deslocar até 14 quilômetros para serem atendidas. Para quem trabalha, isto significa filas maiores, mais pressão e um atendimento cada vez mais tenso. Na Bahia, o banco fechou 70 unidades nos últimos cinco anos. Nacionalmente, o número salta para 241 agências encerradas e nove em processo de fechamento. Entre os trabalhadores afetados, 18% foram desligados e 79% tiveram de ser realocados, muitas vezes para postos distantes, quebrando rotinas e aumentando o desgaste.


Outro caso recente ocorreu em um dos bairros mais populosos da capital baiana. Cajazeiras, com cerca de 450 mil moradores, teve a agência Santander fechada em maio de 2024, mesmo o banco registrando R$ 3 bilhões de lucro no trimestre daquele ano.


No Brasil, 1.774 pontos de atendimento (agências e postos) foram fechados, sendo 1.358 só do Bradesco. Desde 2014, foram 5 mil endereços bancários extintos pelos bancos Itaú, Bradesco e Santander.


Do lado de quem trabalha, o desmonte também cobra o seu preço. O número de bancários na Bahia caiu de 17.969 em 2017 para 17.058 em novembro de 2025. Só no ano passado, foram 372 postos de trabalho a menos. Entre outubro de 2023 e julho de 2025, o Estado perdeu 425 empregos líquidos, resultado de 2.132 demissões contra 1.707 contratações. Menos trabalhadores para atender mais gente em menos espaço.