Violência policial tem aval das elites
Em 10 anos, as mortes cometidas por policiais cresceram 170%, reafirmando o que há décadas estudos comprovam: a violência estatal é um padrão que a instituição criou e alimentou até os dias de hoje.
Por Itana Oliveira
Mais uma evidência de que a questão exige uma solução, o mais rápido possível. O Brasil registrou aumento de 4,5% nas mortes causadas por policiais, ano passado, em relação a 2024, com 6.519 pessoas mortas no período, segundo o Ministério da Justiça.
É a primeira alta desde 2021 e ocorre ao mesmo tempo em que o Datafolha aponta que, ano passado, 51% dos brasileiros com 16 anos ou mais dizem sentir mais medo do que confiança na polícia. Em 10 anos, as mortes cometidas por policiais cresceram 170%, reafirmando o que há décadas estudos comprovam: a violência estatal é um padrão que a instituição criou e alimentou até os dias de hoje.
Bahia (1.569), São Paulo (835) e Rio de Janeiro (798) lideram em números absolutos em 2025. Já as maiores taxas por 100 mil habitantes são do Amapá (17,11), Bahia (10,55) e Pará (7,28). Em 2024, nove estados pesquisados somaram 4.068 mortes decorrentes de ações policiais, sendo 3.066 de pessoas pretas ou pardas, confirmando a recorrência de mortes entre negros e pobres, resultado de uma formação histórica ligada à colonização do país.
Há décadas, moradores relatam que operações entram em favelas atirando, e a versão de troca de tiros se repete de forma tão parecida que se tornou previsível. Sempre que há possibilidade de análise mais detalhada da conduta policial, multiplicam-se os casos em que se comprova não haver “confronto”, como alegado, mas sim execução. Os números altos convivem com um sentimento social deformado de boa parte da população, com base na ideia fascinazista de que “bandido bom é bandido morto”, como repetiu e incentivou durante anos o ex-presidente Bolsonaro, capitão do Exército, condenado e preso pelo STF na ação da trama golpista. A maioria da sociedade diz temer a polícia.
Este modelo também atinge os próprios agentes. Ano passado, 185 policiais morreram, número menor do que em 2024, e os suicídios caíram de 151 para 131, mas ainda indicam um agente se matando a cada três dias no país. Policiais são treinados, pressionados e induzidos a matar, inseridos em um sistema que trata a violência como sinônimo de eficiência.
