Mito da baixa produtividade
A estrutura produtiva brasileira foi moldada por quase quatro séculos de trabalho compulsório, baseando o crescimento na superexploração e na redução do custo da mão de obra.
Por Julia Portela
O empresariado brasileiro insiste, há décadas, no discurso da baixa produtividade da classe trabalhadora. A narrativa aparece em documentos da Confederação Nacional da Indústria, em análises do Banco Mundial e em editoriais econômicos. O que não aparece com a mesma ênfase é a histórica resistência do capital em investir de forma consistente em inovação tecnológica, reorganização produtiva e qualificação ampla da força de trabalho. A cobrança recai sobre quem trabalha, enquanto o compromisso com modernização estrutural segue limitado.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostram que a proporção de trabalhadores com jornadas entre 49 e 60 horas semanais saltou de 21,8% em 2012 para 27,3% em 2022. Em vez de elevar a produtividade por meio de tecnologia e formação profissional, amplia-se a intensificação do trabalho. Jornadas exaustivas, ritmo acelerado e compressão salarial tornam-se regra. Trata-se de uma escolha política e econômica que transfere aos trabalhadores o custo da competitividade.
A estrutura produtiva brasileira foi moldada por quase quatro séculos de trabalho compulsório, baseando o crescimento na superexploração e na redução do custo da mão de obra. Quando o lucro depende da precarização, o estímulo à inovação perde centralidade. Esse padrão histórico se atualiza no presente por meio da flexibilização de direitos, da fragilização sindical e da prioridade ao rentismo em detrimento do desenvolvimento produtivo.
Superar esse modelo exige romper com a lógica ultraliberal que privilegia o mercado financeiro e subordina a soberania nacional aos interesses privados. Desenvolvimento econômico com justiça social pressupõe valorização salarial, redução da jornada, investimento público e fortalecimento da organização coletiva. Sem enfrentar a superexploração, o discurso da produtividade seguirá sendo instrumento de pressão contra quem vive do próprio trabalho.
