IA que acelera desigualdades
A ideia de neutralidade tecnológica serve para mascarar o processo. Sistemas de IA são alimentados por algoritmos que carregam preconceitos estruturais, reproduzindo discriminações de classe, raça e gênero em escala automatizada.
Por Julia Portela
A expansão da inteligência artificial no Brasil avança em ritmo acelerado, mas sob a lógica da desigualdade. Dados da pesquisa “Consumo e uso de Inteligência Artificial no Brasil” mostram que 93% da população já utilizam alguma ferramenta de IA, enquanto 75% afirmam que a tecnologia faz parte do cotidiano. Ao mesmo tempo, quase metade dos brasileiros nem sequer compreende o que está utilizando, evidenciando um processo de digitalização marcado pela exclusão e pela falta de acesso à informação.
Esse cenário não é acidental. A inserção da inteligência artificial ocorre dentro de um modelo econômico que prioriza o lucro e a eficiência acima de direitos. No sistema financeiro, nas plataformas digitais e nas relações de trabalho, algoritmos passam a determinar acessos, oportunidades e até restrições, sem qualquer transparência. A tecnologia, vendida como inovação, opera na prática como ferramenta de controle e aprofundamento das desigualdades.
A ideia de neutralidade tecnológica serve para mascarar o processo. Sistemas de IA são alimentados por algoritmos que carregam preconceitos estruturais, reproduzindo discriminações de classe, raça e gênero em escala automatizada. Ao mesmo tempo, a precariedade no acesso à internet e a limitação de recursos digitais excluem milhões de trabalhadores dos benefícios prometidos, concentrando ainda mais poder nas mãos de grandes empresas.
Assim, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta e se consolida como instrumento político dentro da lógica ultraliberal. Sem regulação e controle social, seu avanço tende a ampliar a exploração e a exclusão. O debate sobre tecnologia precisa estar vinculado à luta por direitos, garantindo que a inovação não seja mais um mecanismo de concentração de renda, mas um instrumento a serviço da classe trabalhadora.
