Conferência BA/SE: bancos privados debatem lucros e fechamento
O Comando Nacional dos Bancários, ressaltou que a próxima campanha salarial será marcada por grandes desafios. Segundo eles, diante do atual cenário econômico e da postura dos bancos nas negociações, preservar os direitos já conquistados será uma das principais tarefas da categoria.
Por Caio Ribeiro
Enquanto registram lucros bilionários e ampliam os investimentos em tecnologia, os bancos privados seguem promovendo o fechamento de agências e a redução dos quadros de pessoal. O cenário, que afeta trabalhadores e clientes, foi um dos principais temas debatidos durante o Encontro dos Bancos Privados, realizado NA Conferência BA/SE, Dirigentes sindicais do Bradesco, Itaú e Santander alertaram para os impactos da digitalização acelerada dos serviços, que tem resultado em demissões, sobrecarga de trabalho, adoecimento da categoria e dificuldades de acesso ao atendimento bancário.
Representando os trabalhadores do Bradesco, Ronaldo Luiz Ornelas destacou que a instituição adota uma estratégia voltada à redução dos custos físicos, o que, na prática, tem significado o fechamento de unidades e a eliminação de postos de trabalho. Segundo ele, o banco possuía uma forte capilaridade no interior e vem reduzindo significativamente sua presença física, prejudicando não apenas os bancários, mas também parte da população que enfrenta dificuldades para utilizar os canais digitais. O dirigente chamou atenção para os impactos sociais da digitalização dos serviços, especialmente para idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade digital, além dos efeitos sobre a saúde mental dos trabalhadores submetidos à pressão por resultados e à sobrecarga de trabalho.
Os números reforçam a preocupação. Desde 2016, o Bradesco fechou 1.356 agências e postos de atendimento em todo o país. Na Bahia, a rede foi reduzida de aproximadamente 317 para 165 unidades, com o encerramento de cerca de 152 agências no período. Embora o banco tenha ampliado a contratação de profissionais ligados à área tecnológica, os representantes dos trabalhadores avaliam que a substituição de funções tradicionais por novas atividades não compensa a perda de empregos nem resolve os impactos causados pelas demissões.
No Itaú, a situação também preocupa. A diretora Luciana Dórea afirmou que o banco vive um momento marcado pelo aumento dos casos de adoecimento e assédio moral organizacional. Segundo ela, muitos trabalhadores permanecem em atividade mesmo enfrentando problemas de saúde por receio de sofrer prejuízos na carreira. Ao mesmo tempo, o banco intensifica o processo de fechamento de agências e postos de atendimento. Apenas entre janeiro e abril deste ano, foram encerradas 11 unidades na Bahia, o mesmo número registrado durante todo o ano de 2025.
De acordo com a dirigente, os fechamentos já impactaram cerca de 90 mil clientes e atingiram diretamente 85 trabalhadores entre realocações e desligamentos. Um dos exemplos citados foi o município de Camaçari, um dos mais importantes polos industriais da Bahia, que perdeu uma de suas duas agências do Itaú. No cenário nacional, o banco fechou cerca de 319 agências e anunciou o encerramento de outros 188 postos de atendimento. Na Bahia, aproximadamente 70 unidades foram desativadas nos últimos anos.
A realidade não é diferente no Santander. O diretor José Antônio informou que apenas no primeiro trimestre deste ano o banco fechou 73 agências no Brasil. Em muitos casos, uma única unidade passou a absorver a demanda de até quatro agências encerradas, aumentando a pressão sobre os trabalhadores e prejudicando o atendimento aos clientes. Entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, o Santander reduziu sua rede física de 2.430 para 1.695 unidades em todo o país, o que representa o fechamento de 735 agências. Em Salvador, entre sete e oito unidades deixaram de funcionar recentemente.
Embora cada banco apresente suas particularidades, um ponto foi consenso entre os participantes do encontro: as maiores reclamações dos bancários, independentemente da instituição, da cidade ou da agência onde atuam, estão relacionadas ao assédio moral, à sobrecarga de trabalho e aos problemas enfrentados na área da saúde. Os dirigentes relataram que a pressão crescente por metas e resultados, somada à redução dos quadros de pessoal, tem ampliado os casos de adoecimento físico e mental na categoria. Também foram registradas diversas queixas sobre os planos de saúde, especialmente em relação à redução da rede credenciada, à dificuldade de encontrar clínicas, hospitais e profissionais que aceitem os convênios oferecidos pelos bancos e à piora da assistência prestada aos trabalhadores e aposentados.
O Comando Nacional dos Bancários, ressaltou que a próxima campanha salarial será marcada por grandes desafios. Segundo eles, diante do atual cenário econômico e da postura dos bancos nas negociações, preservar os direitos já conquistados será uma das principais tarefas da categoria. A dirigente reforçou que a luta precisa ser coletiva e envolver todos os trabalhadores do ramo financeiro.
Presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia e representante dos funcionários do Bradesco, Elder Perez defendeu a ampliação do diálogo com diferentes setores da sociedade para enfrentar os impactos provocados pela política de fechamento de agências. Para ele, o movimento sindical tem buscado apoio de órgãos de defesa do consumidor, parlamentares e realizado audiências públicas para discutir o tema. Para o dirigente, o debate ultrapassa os limites da negociação trabalhista e exige uma discussão mais ampla sobre a regulamentação do sistema financeiro, de forma a impedir práticas que prejudiquem trabalhadores e clientes.
A avaliação dos participantes do encontro é de que o avanço da digitalização não pode servir de justificativa para a eliminação de empregos e o enfraquecimento do atendimento presencial. Enquanto os bancos seguem registrando resultados expressivos, a categoria bancária enfrenta redução dos postos de trabalho, aumento da pressão por metas, dificuldades de acesso à saúde e fechamento de unidades. Diante desse cenário, a defesa do emprego, das condições de trabalho e da qualidade do atendimento à população deve ocupar papel central nos debates da próxima campanha salarial.


