Lucro dos bancos contrasta com a realidade dos trabalhadores
Especialistas do Dieese destacaram os desafios da categoria diante da reestruturação do setor, marcada por fechamento de postos de trabalho, terceirização e pressão por metas.
Por Caio Ribeiro
A terceira mesa de debates da 28ª Conferência Nacional dos Bancários promoveu uma análise do cenário econômico, do Sistema Financeiro Nacional e das transformações que vêm impactando a categoria bancária. Os debates reuniram especialistas do Dieese que apresentaram dados sobre a rentabilidade do setor financeiro, o endividamento das famílias e as mudanças em curso nas relações de trabalho dentro dos bancos, temas que devem orientar as discussões da Campanha Nacional Unificada 2026.
A abertura da mesa foi conduzida pelo economista Gustavo Cavarzan, técnico do Dieese e doutor em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp. Na sequência, a técnica do Dieese Rosangela Vieira, mestre em Economia Política pela PUC-SP. As apresentações reforçaram um dos principais desafios colocados para a categoria: enfrentar os impactos das transformações tecnológicas e organizacionais em um setor que segue acumulando lucros bilionários, mas que mantém uma política de redução de quadros e aumento da produtividade exigida dos empregados.
Enquanto os maiores bancos do país seguem registrando resultados bilionários e ampliando sua rentabilidade, os trabalhadores do setor enfrentam uma realidade marcada pela redução de postos de trabalho, intensificação das cobranças por metas, avanço da terceirização e impactos cada vez mais profundos da digitalização. O contraste entre os ganhos do sistema financeiro e as condições vividas pelos bancários foi um dos temas centrais do debate sobre o panorama da categoria e do Sistema Financeiro Nacional, realizado durante as discussões da Campanha Nacional dos Bancários 2026.
O desempenho do setor financeiro continua demonstrando sua capacidade de gerar lucros mesmo em cenários de instabilidade econômica. A concentração bancária, a expansão dos serviços digitais, as receitas obtidas com tarifas e operações de crédito e o elevado patamar das taxas de juros têm garantido resultados expressivos às instituições financeiras. Enquanto isso, o país convive com um cenário de crescente endividamento das famílias e comprometimento cada vez maior da renda da população com o pagamento de dívidas.
Dados recentes mostram que o endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis históricos. Em maio de 2026, 81,6% dos lares brasileiros possuíam algum tipo de dívida, o maior índice da série histórica da CNC (Confederação Nacional do Comércio). Ao mesmo tempo, quase 30% das famílias estavam com contas em atraso e mais de 12% declararam não ter condições de quitar seus débitos. O comprometimento da renda familiar com o pagamento de dívidas também alcançou níveis recordes, refletindo o peso dos juros elevados sobre o orçamento da população.
Esse cenário evidencia uma contradição cada vez mais evidente no país. De um lado, o sistema financeiro amplia seus ganhos e fortalece sua posição econômica. De outro, trabalhadores e consumidores enfrentam dificuldades para manter o equilíbrio financeiro, recorrendo frequentemente ao crédito para complementar renda ou cobrir despesas básicas.
Dentro das instituições financeiras, os efeitos desse modelo também são sentidos pelos bancários. Mesmo com o crescimento das operações e dos resultados dos bancos, o setor segue promovendo reestruturações que resultam na eliminação de postos de trabalho. Nos últimos anos, o avanço das plataformas digitais e dos canais remotos reduziu significativamente o número de agências físicas e alterou profundamente a organização do trabalho bancário.
A digitalização dos serviços transformou a relação dos clientes com os bancos, mas também trouxe consequências para os trabalhadores. Muitas atividades antes realizadas presencialmente passaram a ser executadas por aplicativos, plataformas digitais e centrais de atendimento. O processo, apresentado pelas instituições como modernização e ganho de eficiência, tem sido acompanhado pela redução dos quadros de pessoal e pelo aumento da sobrecarga para os empregados que permanecem nas unidades.
Além da diminuição do número de trabalhadores, a categoria convive com uma crescente pressão por resultados. As metas comerciais se tornaram uma das principais fontes de adoecimento no setor bancário. A cobrança permanente por vendas de produtos financeiros, captação de clientes, oferta de crédito, seguros e investimentos cria um ambiente de trabalho marcado pela competitividade e pela pressão psicológica constante.
Entidades representativas dos trabalhadores alertam que o modelo de gestão baseado em metas cada vez mais agressivas tem contribuído para o aumento dos casos de estresse, ansiedade, depressão e outras doenças relacionadas ao trabalho. A busca incessante por produtividade, associada ao medo de descomissionamentos e avaliações negativas, acaba impactando diretamente a saúde física e mental dos bancários.
Outro fator que preocupa a categoria é o avanço da terceirização. Com a utilização de empresas prestadoras de serviços e correspondentes bancários, parte das atividades tradicionalmente desempenhadas por bancários vem sendo transferida para trabalhadores que não possuem os mesmos direitos, salários ou condições previstas nas convenções coletivas da categoria. Esse movimento contribui para a precarização das relações de trabalho e enfraquece a proteção conquistada ao longo de décadas de organização sindical.
A terceirização também está relacionada à estratégia de redução de custos adotada pelas instituições financeiras. Ao transferir atividades para outras empresas ou ampliar modelos de atendimento fora da estrutura tradicional dos bancos, as instituições conseguem reduzir despesas trabalhistas, ao mesmo tempo em que mantêm ou ampliam sua capacidade de geração de receitas.
O debate sobre o panorama do Sistema Financeiro Nacional reforçou que esses temas estarão no centro das discussões da Campanha Nacional dos Bancários 2026. A categoria busca enfrentar os impactos das transformações tecnológicas, defender empregos, combater a precarização das relações de trabalho e garantir condições dignas para os trabalhadores diante de um setor que segue acumulando resultados expressivos.
Para os representantes dos trabalhadores, o desafio é fazer com que o avanço tecnológico e os ganhos de produtividade proporcionados pela digitalização sejam compartilhados com quem produz a riqueza do sistema financeiro. Em um contexto de lucros elevados, crescimento da concentração bancária e aumento do endividamento da população, a defesa do emprego, da valorização dos trabalhadores e da melhoria das condições de trabalho torna-se um dos principais eixos da mobilização da categoria neste ano.


