Consulta nacional revela principais demandas da categoria bancária

A Consulta Nacional dos Bancários, que reuniu mais de 54 mil respostas em todo o país, aponta as principais demandas e preocupações da categoria para o próximo período. O levantamento serve como base para a construção da pauta de reivindicações e evidencia temas ligados a remuneração, condições de trabalho, saúde e impactos das transformações tecnológicas no setor financeiro.

Por Caio Ribeiro

A Consulta Nacional dos Bancários 2026, realizada pela Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro), reuniu mais de 54 mil respostas de trabalhadores de bancos públicos e privados em todo o país. O levantamento, um dos principais instrumentos de escuta da categoria, orienta a construção da pauta de reivindicações da Campanha Nacional dos Bancários e oferece um retrato detalhado das condições de trabalho, expectativas e desafios enfrentados pelos profissionais do setor financeiro.

 

Os resultados mostram que a valorização econômica permanece como prioridade para a categoria. Entre as principais reivindicações estão o aumento real dos salários, reajustes mais expressivos na Participação nos Lucros e Resultados (PLR), ampliação dos valores dos vales alimentação e refeição (VA e VR) e a elevação do piso salarial. Os bancários também defendem a implementação ou fortalecimento de planos de cargos e salários, mecanismos de promoção mais transparentes e políticas efetivas de igualdade salarial.

 

Outro tema que ganhou destaque foi a necessidade de atualização dos benefícios relacionados às novas formas de trabalho. Trabalhadores que atuam em regime remoto ou híbrido apontam a importância da revisão da ajuda de custo para cobrir despesas com internet, energia elétrica e equipamentos. O reajuste do auxílio combustível também aparece entre as demandas, especialmente para profissionais que utilizam veículos próprios em deslocamentos relacionados às atividades laborais.

 

A pesquisa revela ainda preocupação com a preservação dos direitos conquistados ao longo das últimas décadas por meio da negociação coletiva. Benefícios previstos na Convenção Coletiva de Trabalho, manutenção de cláusulas sociais e melhorias nos planos de saúde figuram entre as prioridades apontadas pelos participantes. A redução da jornada semanal para quatro dias de trabalho também surge como uma pauta crescente, acompanhando debates internacionais sobre qualidade de vida, produtividade e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

 

As transformações tecnológicas no sistema financeiro ocupam espaço central nas preocupações da categoria. O avanço da automação, da digitalização dos serviços bancários e da inteligência artificial é visto simultaneamente como uma oportunidade e um desafio. Entre as reivindicações relacionadas ao tema estão a garantia de proteção ao emprego diante da substituição de atividades por sistemas automatizados e a distribuição dos ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias por meio de melhores salários e benefícios.

 

Os bancários também defendem investimentos permanentes em qualificação e requalificação profissional para acompanhar as mudanças no setor. A preocupação é que a rápida evolução tecnológica exija novas competências sem que os trabalhadores recebam o suporte necessário para essa adaptação. Nesse contexto, a categoria reivindica programas de capacitação financiados pelas instituições financeiras e mecanismos que garantam a empregabilidade dos profissionais.

 

Outro ponto destacado é a necessidade de supervisão humana em processos automatizados. Os participantes da consulta manifestaram preocupação com o uso de algoritmos em decisões relacionadas à contratação, avaliação de desempenho, promoção e desligamento de funcionários. Para a categoria, decisões com impacto direto na vida profissional dos trabalhadores não devem ocorrer exclusivamente por meio de sistemas automatizados, sem análise e responsabilidade humana.

 

Questões ligadas à privacidade e ao monitoramento digital também aparecem entre as demandas. Os bancários defendem limites para mecanismos de vigilância considerados excessivos, especialmente após a ampliação do trabalho remoto e do uso de ferramentas digitais de acompanhamento de produtividade. O objetivo é garantir que a adoção de novas tecnologias ocorra com respeito aos direitos individuais e à proteção de dados pessoais.

 

A consulta também evidencia o agravamento dos problemas relacionados à saúde física e mental da categoria. A pressão por resultados, as cobranças constantes e o cumprimento de metas são apontados como fatores que impactam diretamente o bem-estar dos trabalhadores. Muitos participantes relataram sensação frequente de esgotamento, desmotivação e fadiga, além de sintomas associados ao estresse prolongado.

 

Entre os problemas de saúde mencionados estão crises de ansiedade, insônia, dores de cabeça recorrentes, gastrite nervosa, alterações na pressão arterial e formigamentos. O levantamento mostra ainda o crescimento do uso de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos, bem como o aumento dos afastamentos médicos relacionados a transtornos mentais e emocionais.

 

Os dados reforçam um cenário que vem sendo apontado pelas entidades sindicais nos últimos anos: o adoecimento dos bancários permanece diretamente associado às condições de trabalho e à intensificação das exigências por produtividade. Diante desse quadro, a categoria reivindica medidas mais efetivas de prevenção, combate ao assédio moral, acompanhamento da saúde mental e revisão dos modelos de gestão baseados em metas consideradas abusivas.

 

Os resultados da Consulta Nacional dos Bancários 2026 demonstram que as reivindicações da categoria vão além das questões salariais. Os trabalhadores cobram melhores condições de trabalho, proteção diante das transformações tecnológicas, valorização profissional e políticas capazes de preservar a saúde física e mental. O levantamento servirá como referência para as negociações da próxima Campanha Nacional dos Bancários, consolidando as prioridades que deverão ser apresentadas aos bancos nas mesas de negociação.