Fenaban insiste em perdas e mantém impasse nas negociações

Depois de quase 12 horas de discussões, entrando pela noite e passando das 22h, a 11ª rodada de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), realizada nesta quarta-feira (26/08), terminou sem acordo.

Por Rose Lima

Depois de quase 12 horas de discussões, entrando pela noite e passando das 22h, a 11ª rodada de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), realizada nesta quarta-feira (26/08), terminou sem acordo. Os bancos insistiram em uma proposta que mantém perdas para a categoria, com reajuste de apenas 2,57% para salários, demais remunerações e auxílios. Considerando a inflação estimada para a data-base (1º de setembro), o índice representa perda real de 1,50%.

 

A rodada foi mais um capítulo de uma negociação marcada pela demora dos bancos em apresentar respostas concretas. Desde o início das mesas, em 2 de julho, o Comando Nacional vem cobrando aumento real, valorização da PLR, recomposição dos vales e avanços em emprego, saúde e condições de trabalho. A pauta da categoria foi entregue à Fenaban em 24 de junho, construída a partir de quase 55 mil respostas na Consulta Nacional e das conferências realizadas em todo o país. Entre as reivindicações está a reposição da inflação mais 5% de aumento real.

 

Bancos recuam em alguns pontos, mas mantêm proposta de perda

Na 11ª rodada, além de manter os 2,57% para salários e demais verbas, a Fenaban apresentou propostas específicas para PLR, vale-alimentação e vale-refeição.

 

Para a PLR, os bancos propuseram reajustar em 2,57% apenas o teto da regra básica. A medida teria impacto positivo para aproximadamente 35 mil trabalhadores, mas deixaria a maior parte da categoria sem qualquer melhoria na participação nos lucros.

 

O Comando Nacional rejeitou a proposta e cobrou mudanças em toda a regra básica da PLR, incluindo reajuste dos tetos, das parcelas fixas e melhoria da PLR adicional. A reivindicação é para que a distribuição dos resultados seja efetivamente ampliada para toda a categoria, e não apenas para um grupo restrito.

 

Na rodada anterior, os bancos haviam proposto o congelamento do benefício. Agora, embora tenham recuado parcialmente, continuam sem atender à reivindicação de valorização do benefício para todos os bancários.

 

VA e VR também ficam abaixo do reivindicado

Para o vale-alimentação, a Fenaban propôs aplicar a inflação medida pelo IPCA para a alimentação em domicílio. O índice está em 2,57%, com estimativa de chegar a 2,99% na data-base.

 

No entanto, o reajuste também ficaria abaixo da inflação considerada para a negociação da categoria, representando perda de 1,1% em relação ao INPC.

 

Para o vale-refeição, a proposta foi de 4,5%, correspondente à inflação da alimentação fora do domicílio medida pelo IPCA.

 

O Comando Nacional considera insuficiente a metodologia. A reivindicação é de recomposição dos valores e de aumento que permita recuperar o poder de compra perdido nos últimos anos. Segundo dados apresentados durante a negociação, o valor atual do VR já é inferior ao preço médio de uma refeição em importantes centros urbanos do país.

 

Uma campanha marcada pela enrolação

A demora em apresentar uma proposta não começou agora. Nas primeiras quatro rodadas, realizadas em julho, a negociação passou por temas como inclusão, jornada, emprego, igualdade, endividamento, saúde e condições de trabalho.

 

Na primeira mesa, em 2 de julho, o Comando apresentou reivindicações relacionadas à inclusão de pessoas com deficiência, jornada 4x3, teletrabalho, direito à desconexão e segurança digital. Também cobrou a ultratividade da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), para garantir a manutenção dos direitos enquanto uma nova convenção não fosse assinada. Os bancos não aceitaram assinar o pré-acordo de ultratividade.

 

Na segunda rodada, em 7 de julho, o foco foi o emprego. O Comando denunciou a eliminação de 93,3 mil postos de trabalho e o fechamento de 9,5 mil agências entre 2015 e maio de 2026. Foram cobradas a suspensão das demissões e do fechamento de unidades, o combate às terceirizações e medidas de proteção ao emprego. A Fenaban rejeitou as principais reivindicações.

 

A terceira mesa, em 16 de julho, tratou de igualdade de oportunidades, combate às discriminações e endividamento. Entre as reivindicações estiveram medidas para ampliar a presença de mulheres, pessoas negras e outros grupos sub-representados em cargos de liderança e na área de tecnologia, além da criação de mecanismos para ajudar bancários endividados.

 

Na quarta rodada, em 21 de julho, os bancos chegaram a ameaçar romper com o modelo de mesa única e separar as negociações entre bancos públicos e privados. O Comando rejeitou a tentativa de divisão e reafirmou a unidade nacional da categoria. A saúde também entrou no centro do debate, com cobranças relacionadas ao adoecimento mental, metas abusivas, pressão e riscos psicossociais.

 

Aumento real entrou na pauta, mas bancos adiaram resposta

A discussão econômica começou efetivamente na quinta rodada, em 30 de julho. O Comando apresentou a reivindicação de 5% de aumento real, além da inflação, para salários e demais verbas, além da valorização do piso, da PLR e dos vales.

 

Os dados apresentados na mesa mostravam a diferença entre a evolução dos lucros e a remuneração dos trabalhadores. Entre 2003 e 2025, o lucro líquido dos maiores bancos cresceu 178% acima da inflação, enquanto a massa salarial real da categoria caiu 17% desde 2014.

 

Mesmo diante dos números, a Fenaban não apresentou proposta na sexta rodada, em 4 de agosto, nem na sétima, em 13 de agosto. Nesta última, os bancos tentaram impor um modelo de reajuste por faixas salariais, além de congelar o piso de ingresso. A proposta foi rejeitada pela categoria.

 

A mobilização fez diferença. Nas assembleias realizadas em 17 de agosto, cerca de 97% dos trabalhadores rejeitaram a proposta de reajuste por faixas e 90% aprovaram uma paralisação nacional de 24 horas. Na oitava mesa, em 18 de agosto, a Fenaban recuou do modelo escalonado e do congelamento do piso, mas continuou sem apresentar um índice de reajuste.

 

Paralisação aumenta pressão, mas bancos continuam sem resposta

A paralisação nacional de 20 de agosto foi o principal marco de mobilização da campanha até aqui. Na Bahia, 475 unidades foram fechadas, aproximadamente 65% das 735 agências do Estado. O movimento ocorreu depois de oito rodadas de negociação sem uma proposta econômica que atendesse às reivindicações da categoria.

 

Mesmo após a paralisação, a Fenaban não apresentou proposta na nona rodada, em 24 de agosto. O Comando cobrou novamente um índice e uma proposta global de valorização.

 

Na décima rodada, em 25 de agosto, finalmente veio uma proposta econômica. Primeiro, os bancos ofereceram 2,06%, equivalente a uma perda real de 1,99%. Após a rejeição, apresentaram 2,57%, ainda abaixo da inflação, mantendo perda real de 1,50%. A proposta também previa congelamentos e ataques a direitos em sua primeira versão, incluindo indenização por morte, auxílio-funeral e multa por descumprimento da CCT. A proposta foi rejeitada.

 

Lucros bilionários e reajuste abaixo da inflação

O contraste entre a proposta dos bancos e a capacidade financeira do setor é um dos principais pontos de tensão da negociação.

 

O Comando Nacional registrou na mesa que, dos 10.126 reajustes firmados neste ano, 87,1% resultaram em ganho real. Enquanto outras categorias avançam acima da inflação, os bancos, um dos setores mais lucrativos da economia brasileira, oferecem aos trabalhadores um reajuste que representa menos de 1% do lucro obtido pelo setor em 2025.

 

Segundo os dados apresentados pelo movimento sindical, os bancos lucraram R$ 182,4 bilhões em 2025. Ao mesmo tempo, a remuneração dos bancários perdeu participação diante da evolução dos resultados financeiros das instituições.

 

A própria estrutura financeira do setor reforça a cobrança por aumento real. Em 2025, a receita com tarifas dos cinco maiores bancos foi suficiente para cobrir 123% das despesas com pessoal, incluindo a PLR. Sem considerar a PLR, a cobertura chegou a 142%.

 

Negociação entra na reta final

Com a data-base marcada em 1º de setembro, a campanha salarial entra nos últimos dias sob forte pressão. A atual CCT tem vigência até 31 de agosto, enquanto o Comando continua cobrando a ultratividade para garantir a manutenção dos direitos durante a negociação.

 

Nesta quinta-feira (27/08), uma nova rodada acontece, a partir das 10h, e a categoria segue cobrando aumento real nos salários e demais verbas, valorização efetiva da PLR, recomposição dos vales e respeito aos direitos conquistados. Até sexta-feira (28/08), tem debates e os bancários continuam mobilizados. Caso não haja avanços efetivos, o movimento pode radicalizar, com greve por tempo indeterminado e paralisação da produção