Acidentes expõem o peso do racismo no mercado de trabalho
O AEAT (Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho) de 2024 revela que 53% dos acidentes registrados no período - 417,6 mil de 787,4 mil com informação de raça/cor -, atingiram a população negra.
Por Ana Beatriz Leal
As características dos acidentes de trabalho reproduzem a estrutura desigual do mercado, em que o racismo limita escolhas, concentra riscos e amplia a vulnerabilidade da população negra.
O AEAT (Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho) de 2024 revela que 53% dos acidentes registrados no período - 417,6 mil de 787,4 mil com informação de raça/cor -, atingiram a população negra. Lançado em dezembro de 2025 pelo Ministério da Previdência Social, o relatório passa a detalhar os dados por raça/cor e escolaridade, escancarando desigualdades históricas.
Entre os registros, 45,8% envolveram pessoas brancas (360.907), 44% pardas (347.053) e 9% pretas (70.508); amarelos somaram 0,7% (6.501) e indígenas 0,2% (2.393). Houve ainda 46.686 casos sem informação, totalizando 834.048 acidentes.
Em relação a 2023, os acidentes entre pretos e pardos cresceram quase 16%, contra 9,7% entre brancos. Números que evidenciam o racismo estrutural, que empurra trabalhadores negros para ocupações mais precárias, perigosas e com menor proteção.
No recorte de 2014 a 2024, as ocorrências subiram 10,6%. Atingem 16,9 trabalhadores a cada mil. Os acidentes de trajeto lideram o aumento relativo: 17,8% frente a 2023 e 45,3% em relação a 2022 (de 124.829 para 181.335), refletindo longos deslocamentos e infraestrutura desigual, realidade mais comum entre trabalhadores negros.
Por atividade, o atendimento hospitalar concentrou 70.874 acidentes, seguido do comércio varejista (35.324) e do transporte rodoviário de cargas (24.931), setores com alta exposição a riscos e forte presença de mão de obra negra. Quanto às consequências, 88,1% dos casos resultaram em assistência médica (193 mil) ou afastamento inferior a 15 dias (557 mil). Ainda assim, 9.315 acidentes geraram invalidez permanente e 3.394 levaram a óbito.
