Produtividade que mata

Levantamento recente revela que 68% das empresas afirmam não compreender claramente as mudanças trazidas pela nova NR-1 (Norma Regulamentadora). Além disto, 62% não possuem qualquer indicador formal para identificação e monitoramento de riscos psicossociais, ponto central da atualização da norma.

Por Julia Portela

O avanço dos transtornos mentais no país e no mundo do trabalho não ocorre de forma aleatória e reflete diretamente nos indicadores nacionais. Ano passado, mais de 1 milhão de licenças foram concedidas, estabelecendo um novo recorde. Ao todo, o Brasil registrou cerca de 4 milhões de afastamentos do trabalho no ano, evidenciando o peso crescente da saúde mental no conjunto das licenças e o impacto direto das condições impostas pela lógica produtivista.

 

Levantamento recente revela que 68% das empresas afirmam não compreender claramente as mudanças trazidas pela nova NR-1 (Norma Regulamentadora). Além disto, 62% não possuem qualquer indicador formal para identificação e monitoramento de riscos psicossociais, ponto central da atualização da norma.

 

 O dado mais alarmante mostra que 58% das empresas só reagiriam a problemas de saúde mental após afastamentos, denúncias formais ou ações judiciais, escancarando um modelo de gestão reativo e negligente com a vida dos trabalhadores.

 

A nova NR-1 não cria problema, apenas torna visível um risco historicamente ignorado pelo empresariado brasileiro. Embora 78% das empresas afirmem se preocupar com saúde mental, apenas 23% contam com políticas formais, orçamento específico e indicadores claros. Em 64% dos casos, o tema ainda é tratado de forma pontual, por meio de ações isoladas e benefícios desconectados da organização do trabalho, reforçando o descompasso entre discurso institucional e prática e a urgência de romper com modelos que adoecem e descartam trabalhadores