Saúde mental vira mercado bilionário

Relatórios internacionais apontam que o setor de tratamentos para esses transtornos deve praticamente dobrar de tamanho na próxima década.

Por Julia Portela

A explosão de diagnósticos de ansiedade e depressão entre jovens expõe uma engrenagem conhecida: o adoecimento cresce no mesmo ritmo em que se expande um mercado bilionário de psicofármacos. A medicalização deixa de ser resposta pontual e passa a operar como estratégia central diante de uma geração pressionada por desemprego, informalidade e insegurança permanente.

 

Relatórios internacionais apontam que o setor de tratamentos para esses transtornos deve praticamente dobrar de tamanho na próxima década. No Brasil, o crescimento também é constante, revelando que a saúde mental vem sendo tratada como oportunidade de negócio, e não como questão pública que exige enfrentamento coletivo e políticas estruturais.

 

Entre os mais jovens, o avanço é ainda mais acelerado. O aumento no consumo de medicamentos acompanha a intensificação de rotinas exaustivas, metas inalcançáveis e a ausência de perspectivas. O que se apresenta como cuidado, na prática, muitas vezes mascara um modelo que adoece e responsabiliza o indivíduo pelo colapso.

 

O resultado é a naturalização de um ciclo perverso: precariza-se o trabalho, amplia-se o sofrimento e, em seguida, oferece-se medicação como solução. Enquanto isto, seguem fora da agenda medidas capazes de alterar a realidade, como garantia de direitos, regulação das novas formas de exploração e fortalecimento das políticas públicas. A conta recai, mais uma vez, sobre os trabalhadores.