Qualidade educacional depende de fatores sociais, diz pesquisador
A educação básica está majoritariamente sob responsabilidade dos municípios, que têm menos recursos e estrutura, o que compromete a implementação das políticas públicas. Embora a legislação tenha diretrizes consolidadas, faltam critérios objetivos e capacidade administrativa para colocá-las em prática, o que amplia desigualdades já existentes.
Por Itana Oliveira
A desigualdade social segue como principal obstáculo à qualidade da educação no Brasil, segundo o pesquisador e professor da UFBA, Ivan Siqueira. A afirmação foi feita na última sexta-feira (24/04), durante a 2ª Conferência FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) 2026. Para ele, apesar dos avanços no acesso à escola desde a Constituição de 1988, o país não conseguiu garantir um padrão de qualidade compatível, justamente porque as diferenças sociais continuam estruturando quem aprende, como aprende e em que condições.
De acordo com o pesquisador, o cenário se agrava na base do sistema. A educação básica está majoritariamente sob responsabilidade dos municípios, que têm menos recursos e estrutura, o que compromete a implementação das políticas públicas. Embora a legislação tenha diretrizes consolidadas, faltam critérios objetivos e capacidade administrativa para colocá-las em prática, o que amplia desigualdades já existentes.
O pesquisador também aponta problemas no modelo educacional que reforçam o quadro. A formação de professores sem prática em sala de aula e um currículo fragmentado, incompatível com a carga horária real, evidenciam um sistema que não corresponde à realidade dos estudantes. Ao mesmo tempo, as transformações tecnológicas alteraram a forma de aprender, enquanto o ensino segue preso a um modelo que, segundo ele, “não serve mais”, diante de dificuldades crescentes de concentração, que afeta a organização do pensamento e avanço de problemas como desinformação e impactos na saúde mental.
Para Ivan Siqueira, todos esses fatores convergem para um mesmo ponto: sem enfrentar a desigualdade social, não há como avançar de forma consistente. Mesmo com o potencial das tecnologias e a necessidade de rever avaliação, currículo e formação docente, o pesquisador afirma que o problema central permanece estrutural. Sem essa mudança, a tendência é manter a ampliação do acesso sem garantir, de fato, qualidade na educação.


