Congresso quer mais 10 anos de exaustão

A crueldade do debate salta aos olhos quando se observa quem decide o destino do brasileiro. Parlamentares com salários acima de R$ 46 mil, auxílio-moradia, verbas milionárias de gabinete, recessos prolongados e uma rotina parlamentar muitas vezes concentrada em três dias por semana.

Por Rose Lima

Enquanto milhões de brasileiros acordam antes do sol nascer, enfrentam ônibus lotados, passam horas em pé no comércio, em supermercados, farmácias, indústrias e serviços essenciais, a direita e a extrema direita articulam uma emenda, assinada por 171 deputados federais do Centrão e do bolsonarismo, para adiar o fim da escala 6x1 por até dez anos. Pior. Há propostas que ampliam possibilidades de jornadas ainda mais exaustivas, chegando a 52 horas semanais.


A crueldade do debate salta aos olhos quando se observa quem decide o destino do brasileiro. Parlamentares com salários acima de R$ 46 mil, auxílio-moradia, verbas milionárias de gabinete, recessos prolongados e uma rotina parlamentar muitas vezes concentrada em três dias por semana tentam convencer o país de que o trabalhador comum não pode ter direito a descanso.


Segundo dados da Rais 2023 (Relação Anual de Informações Sociais), cerca de 33,4 milhões de brasileiros trabalham na escala 6x1. O índice representa 30% dos empregos do país. São milhões de pessoas submetidas a jornadas de 44 horas semanais, às vezes em atividades fisicamente degradantes e emocionalmente adoecedoras.


É a vida do caixa de supermercado que passa o sábado inteiro em pé. Da mãe que quase não vê os filhos crescerem. Do jovem que trabalha seis dias e não consegue estudar. Do trabalhador que vive cansado, sem tempo para descansar, cuidar da saúde ou simplesmente existir fora do trabalho.


E justamente quando o governo Lula começa a discutir um modelo mais humano de jornada, surge no Congresso uma articulação, a mesma de sempre, para proteger interesses econômicos às custas da dignidade humana. O discurso é velho: “a economia vai quebrar”, “o desemprego crescer” e as “empresas serão prejudicadas”. O mesmo terrorismo econômico foi usado contra as férias, 13º salário, licença maternidade e inúmeros direitos ao longo da história. O tempo provou que era tudo fake news.