Dez anos do golpe: o projeto que atacou direitos
A agenda apresentada no documento Uma Ponte para o Futuro tinha um caminho definido: reduzir o papel do Estado, cortar investimentos públicos e flexibilizar direitos.
Por Julia Portela
Dez anos depois, os efeitos do golpe de 2016 continuam presentes na vida dos brasileiros. Em 31 de agosto daquele ano, 61 senadores votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff, contra 20 que rejeitaram a medida. Michel Temer assumiu definitivamente a Presidência e, com ele, avançou um projeto que prometia colocar o país nos trilhos, mas que rapidamente mostrou a quem pretendia beneficiar.
A agenda apresentada no documento Uma Ponte para o Futuro tinha um caminho definido: reduzir o papel do Estado, cortar investimentos públicos e flexibilizar direitos. O resultado foi uma sequência de medidas que atingiram diretamente os bancários e demais categorias. A Reforma Trabalhista, aprovada em 2017, alterou mais de 100 pontos da CLT, ampliou formas precárias de contratação, enfraqueceu a negociação coletiva e retirou proteções históricas. No mesmo ano, a terceirização foi ampliada para todas as atividades, transformando a precarização em instrumento permanente de redução de custos.
O ataque também mirou quem organiza a resistência. A contribuição sindical obrigatória foi retirada sem a construção de uma alternativa de financiamento, atingindo a estrutura dos sindicatos e dificultando a organização das categorias. A Reforma Trabalhista também acabou com a ultratividade, deixando acordos e convenções coletivas sem validade automática após o fim da vigência. Na prática, direitos conquistados passaram a ficar mais vulneráveis justamente durante as negociações.
Como parte do mesmo projeto, a Emenda Constitucional 95 congelou por 20 anos o crescimento das despesas primárias da União. Enquanto serviços públicos e investimentos sociais eram submetidos ao limite, o discurso da austeridade servia para justificar cortes e retirar do Estado a capacidade de responder às necessidades da população. A lógica era simples: para preservar o mercado e reduzir custos, direitos poderiam ser sacrificados.
O golpe não terminou com a saída de Dilma do Palácio do Planalto. Ele abriu caminho para um projeto que fez dos direitos sociais alvo, dos sindicatos um obstáculo e da austeridade uma regra. Dez anos depois, a conta ainda está sendo paga. Por isso, lembrar o que aconteceu não é olhar para o passado: é entender de onde vieram muitos dos ataques que ainda hoje precisam ser enfrentados.


