NR-1 coloca saúde mental no centro do debate
Em um cenário de crescimento dos afastamentos por transtornos mentais e de intensificação das cobranças nos locais de trabalho, a nova NR-1 foi apresentada como uma ferramenta importante para fortalecer a proteção dos trabalhadores e ampliar a responsabilização das empresas pelos riscos psicossociais.
Por Julia Portela
A penúltima mesa do último dia da 28ª Conferência dos Bancários da Bahia e Sergipe trouxe para o centro do debate um tema que há anos mobiliza a categoria: a saúde mental dos trabalhadores. Em um cenário de crescimento dos afastamentos por transtornos mentais e de intensificação das cobranças nos locais de trabalho, a nova NR-1 foi apresentada como uma ferramenta importante para fortalecer a proteção dos trabalhadores e ampliar a responsabilização das empresas pelos riscos psicossociais.
A mesa reuniu: Suerda Fortaleza de Souza, médica do trabalho do CESAT, Nilde Ferreira, psicóloga do Cerest, Tatiana Rossini, assessora jurídica da Federação, Alan Gomes, diretor de Saúde do Trabalhador da Federação, além das dirigentes sindicais Lucélia Batista de Oliveira Amorim, secretária-geral do Sindicato dos Bancários de Irecê e Região, e Conceição, representante de Feira de Santana. O encontro também marcou o lançamento da Cartilha de Saúde, construída pela Diretoria de Saúde do Sindicato dos Bancários da Bahia em parceria com Suerda Fortaleza e Nilde Ferreira.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 mudou o eixo da discussão sobre saúde no ambiente de trabalho. Em vigor desde maio de 2025 e com aplicação de sanções iniciada em 26 de maio deste ano, a norma passou a exigir que empresas identifiquem, avaliem e combatam riscos psicossociais, como pressão abusiva por metas, sobrecarga de trabalho, assédio moral, conflitos interpessoais e ambientes organizacionais tóxicos. O que durante décadas foi tratado pelos empregadores como problema individual do trabalhador passa agora a ser reconhecido como consequência direta da forma como o trabalho é organizado.
Durante a exposição, Nilde Ferreira destacou que o assédio moral não nasce de situações isoladas, mas da repetição de práticas abusivas incorporadas à cultura organizacional das empresas. Segundo ela, o assédio pode ocorrer de forma vertical, horizontal, ascendente ou descendente, deixando marcas profundas na saúde física e mental. Os impactos aparecem em forma de ansiedade, depressão, afastamentos prolongados e incapacidades para o trabalho.
Os números apresentados durante o debate ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Dados do INSS apresentados na mesa mostram que, entre 2022 e 2024, os afastamentos por transtornos mentais sem reconhecimento de nexo com o trabalho cresceram 102% na Bahia e 143% no Brasil. Já os casos reconhecidos como relacionados à atividade laboral aumentaram 19,7% no estado e 30,1% nacionalmente. Somente em 2025, mais de 4,1 milhões de benefícios por incapacidade temporária foram concedidos no país.
Mais do que uma exigência legal, a NR-1 confirma aquilo que os bancários denunciam há anos: metas abusivas, cobrança permanente e gestão pelo medo adoecem trabalhadores. A norma desloca a responsabilidade do indivíduo para a organização do trabalho e fortalece o papel dos sindicatos na fiscalização, na denúncia e na negociação coletiva. Em um setor marcado pelo adoecimento crescente, a saúde mental deixa de ser um tema secundário e passa a ocupar o centro da luta por condições dignas de trabalho.


