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“Zepelim” e a hipocrisia social

Graça Gomes, fala sobre Chico Burarque e e a hipocrisia social.

A canção Zepelim, de Chico Buarque, permanece atual ao expor uma sociedade marcada pelo julgamento moral, exclusão e pela hipocrisia. Lançada em um contexto de forte conservadorismo no Brasil, a música retrata a trajetória de uma personagem marginalizada, constantemente alvo de insultos e rejeição, mas que, paradoxalmente, acolhe aqueles que a condenam.

 

Ao longo da letra, Chico Buarque faz uma crítica contundente ao comportamento social de uma época em que pessoas consideradas “fora dos padrões” eram empurradas para a invisibilidade. Entre as interpretações mais recorrentes da obra está a associação da personagem a figuras historicamente perseguidas pela moral dominante, como prostitutas, mulheres independentes e LGBTQIA+.

 

A força da música está justamente em revelar uma contradição que persiste na sociedade brasileira: os mesmos grupos que condenam publicamente determinados comportamentos, muitas vezes recorrem, em silêncio, ao acolhimento e à convivência dessas pessoas. O afeto e a solidariedade oferecidos pelos marginalizados contrastam com o preconceito recebido em troca.

 

Especialistas em cultura e música popular brasileira apontam que a canção dialoga diretamente com a realidade vivida pela população LGBTQIA+ durante décadas de intensa repressão social no país. Em um período marcado pelo medo, pela discriminação e pela necessidade de esconder identidades para evitar perseguições, muitos homossexuais criaram redes de apoio e espaços de acolhimento para pessoas igualmente rejeitadas pela sociedade conservadora.

 

Nesse sentido, “Zepelim” ultrapassa o campo artístico e se transforma em denúncia social. Chico Buarque evidencia como o moralismo seletivo opera: a sociedade aceita em segredo aquilo que condena em público. A personagem da música simboliza quem é usado, julgado e descartado, apesar de demonstrar humanidade diante de uma coletividade frequentemente marcada pela intolerância.

 

A reflexão proposta pela canção permanece extremamente atual. Em tempos em que discursos de ódio, preconceito e intolerância atingem mulheres, pessoas LGBTQIA+ e outros grupos socialmente vulnerabilizados, a obra reforça a necessidade de defender o respeito à diversidade, à dignidade humana e ao direito de existir sem discriminação.

 

Mais do que uma composição musical, “Zepelim” é um retrato crítico das desigualdades sociais e da hipocrisia presente em setores da sociedade que insistem em marginalizar aqueles que vivem fora dos padrões considerados aceitáveis. Décadas após o lançamento, a música continua a provocar reflexões fundamentais sobre exclusão social, empatia e justiça.

 

*Graça Gomes é diretora do Sindicato dos Bancários da Bahia