Burnout reflete a escravidão. Não é crise, é projeto
O mundo do trabalho não está em crise por acaso. O que hoje se apresenta como precarização, adoecimento mental, insegurança e esgotamento é, na verdade, a continuidade de um modelo histórico baseado na exploração.
Por Caio Ribeiro
O mundo do trabalho não está em crise por acaso. O que hoje se apresenta como precarização, adoecimento mental, insegurança e esgotamento é, na verdade, a continuidade de um modelo histórico baseado na exploração. A lógica que organizou a colonização e a escravidão não foi superada, apenas se modernizou. A exigência de produtividade permanente, o controle sobre o tempo, a pressão por desempenho e a naturalização do sofrimento fazem parte de um sistema que transforma pessoas em peças descartáveis. O discurso da meritocracia tenta individualizar o fracasso, enquanto esconde que o adoecimento é coletivo e produzido por relações de trabalho violentas.
Neste modelo, descansar virou culpa, adoecer virou fraqueza e reclamar virou risco. A tecnologia, longe de libertar, tem sido usada para ampliar o controle, estender jornadas e dissolver fronteiras entre trabalho e vida. O resultado é uma geração exausta, ansiosa e sem tempo para viver.
Esta realidade atinge com mais força trabalhadores negros, mulheres e jovens, reafirmando que o racismo, o machismo e a desigualdade são partes estruturais do mundo do trabalho no Brasil.
Ao longo do ano passado, segundo o MDHC (Ministério dos Direitos Humanos), foram registradas cerca de 4.515 denúncias de trabalho análogo a escravidão, trabalho infantil, jornadas exaustivas, servidão por dívida e restrição de liberdade, um crescimento de 14% em relação ao ano de 2024, quando forma registradas cerca de 3.959 ocorrências. A exploração não é um desvio do sistema: é sua base de funcionamento.
Assim, é preciso romper com a ideia de que o problema está no indivíduo. Não se trata de aprender a “aguentar mais”, mas de questionar um modelo que lucra com o adoecimento. Defender saúde mental, tempo livre, direitos, o fim da escala 6x1 e a dignidade é uma luta política urgente.
Transformar o mundo do trabalho exige organização, consciência de classe e enfrentamento direto a um sistema que insiste em tratar a vida como recurso. Enquanto o lucro estiver no centro, o sofrimento será regra. E é justamente essa lógica que precisa ser enfrentada, a resposta está na luta coletiva.
