Big techs: poder, lucro e manipulação
Um dos pontos centrais do debate foi o chamado “mito da garagem”, narrativa difundida pelas big techs para sustentar a ideia de que qualquer trabalhador pode se tornar bilionário apenas com esforço individual.
Por Julia Portela
O segundo dia do 4º Encontro Nacional de Comunicação da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) aprofundou o debate sobre o papel estratégico da comunicação na disputa política e ideológica na sociedade. As exposições de Ergon Cugler e Orlando Silva destacaram que compreender o processo comunicacional exige olhar para a estrutura de poder que o sustenta, hoje fortemente concentrada nas grandes plataformas digitais.
Um dos pontos centrais do debate foi o chamado “mito da garagem”, narrativa difundida pelas big techs para sustentar a ideia de que qualquer trabalhador pode se tornar bilionário apenas com esforço individual. Essa construção ideológica tenta ocultar a realidade: grande parte dessas empresas nasceu com forte apoio de recursos públicos e dentro de um sistema marcado por desigualdades e concentração de riqueza.
Atualmente, as cinco maiores empresas de tecnologia do mundo: Amazon, Apple, Microsoft, Meta e Google acumulam cerca de US$ 13 trilhões em valor de mercado. Uma concentração que se traduz em poder político, mobilizado para impedir avanços na agenda de regulação das plataformas digitais e para consolidar a hegemonia tecnológica dos Estados Unidos sobre outros países.
Os algoritmos dessas plataformas são estruturados para maximizar lucro e tempo de permanência nas telas, alimentando usuários com conteúdos que capturam atenção e moldam comportamentos. Neste processo, constrói-se uma disputa ideológica que naturaliza a desregulamentação e enfraquece direitos históricos dos trabalhadores.
A precarização do trabalho passa a ser vendida como liberdade empreendedora, enquanto a identidade coletiva da classe trabalhadora é fragmentada. Diante desse cenário, o debate apontou a necessidade de enfrentar o monopólio das big techs e defender a soberania tecnológica.
O Brasil precisa investir em desenvolvimento próprio e em políticas de regulação que garantam equilíbrio na disputa de narrativas. A comunicação, neste contexto, torna-se uma ferramenta central na luta política e na defesa dos direitos da classe trabalhadora.
