Trabalho por app precarizado

Profissionais por aplicativo trabalham, em média, 44,7 horas por semana, 5,4 horas a mais que os demais trabalhadores do setor privado, e ainda assim têm rendimento por hora inferior.

Por Caio Ribeiro

O trabalho por aplicativos já faz parte da realidade de cerca de 2 milhões de brasileiros, mas a expansão desse modelo está longe de representar avanço nas condições de trabalho. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que os profissionais por aplicativo trabalham, em média, 44,7 horas por semana, 5,4 horas a mais que os demais trabalhadores do setor privado, e ainda assim têm rendimento por hora inferior. O cenário expõe uma das principais contradições da chamada economia dos aplicativos: vende-se a ideia de flexibilidade e autonomia, enquanto trabalhadores são submetidos a jornadas extensas e a uma renda que não acompanha o esforço exigido.

 

A precarização fica ainda mais evidente quando se olha para a Previdência Social. Apenas 34% dos trabalhadores que têm os aplicativos como principal ocupação contribuem para o INSS, contra 63% dos trabalhadores não plataformizados. Entre os motociclistas de aplicativo, a situação é ainda mais grave: somente 19,4% tinham cobertura previdenciária em 2025, ou seja, apenas um em cada cinco. Em uma atividade marcada pela exposição constante a acidentes e pela necessidade de longas jornadas para garantir uma renda, a ausência de proteção social transfere os riscos para o trabalhador, enquanto as empresas mantêm o controle das plataformas.

 

Mais do que uma nova forma de trabalho, os números revelam um processo de precarização que não pode ser tratado como inevitável em nome da inovação. Quando milhões de pessoas precisam trabalhar mais horas para obter uma renda menor e, ao mesmo tempo, permanecem sem garantias previdenciárias, é preciso questionar quem realmente se beneficia desse modelo.