Coferência Bancários BA/SE: balanço anual dos bancos

Os resultados do primeiro trimestre de 2026 reforçam essa tendência. Juntos, os cinco maiores bancos obtiveram lucro de R$ 29,8 bilhões.

Por Julia Portela

Os cinco maiores bancos do país concentram uma carteira de crédito de R$ 5,96 trilhões, valor equivalente a cerca de metade de toda a riqueza produzida pela economia brasileira em um ano. O dado, apresentado pela economista Ana Georgina durante a Conferência dos Bancários da Bahia e Sergipe 2026, evidencia o peso do sistema financeiro na economia nacional e ajuda a dimensionar a elevada concentração bancária existente no país. Apesar desse poder econômico e da manutenção de lucros bilionários, os balanços revelam uma estratégia cada vez mais baseada na redução de custos por meio do fechamento de agências, eliminação de postos de trabalho e ampliação dos canais digitais.

 

Em 2025, Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa registraram lucro conjunto de R$ 123,8 bilhões. Mesmo com uma queda média de 1,9% em relação ao ano anterior, o resultado demonstra a capacidade de rentabilidade do setor. Na análise dos números, Ana Georgina destacou também o desempenho do Nubank, que alcançou lucro de R$ 16,9 bilhões, crescimento de 23,9% em relação a 2024. Embora tenha surgido como fintech, a instituição já integra a Febraban e vem se consolidando como referência para o mercado financeiro. Seu modelo de operação altamente digitalizado, com estruturas mais enxutas e menores custos operacionais, tem servido de parâmetro para os bancos tradicionais ampliarem indicadores de eficiência e lucratividade com o desmonte da estrutura.

 

Os números individuais ajudam a dimensionar a rentabilidade do setor. Em 2025, o Itaú liderou os resultados com lucro de R$ 46,8 bilhões, crescimento de 13,1% em relação ao ano anterior. O Bradesco registrou R$ 24,6 bilhões, alta de 26,1% impactado pela po, enquanto o Santander alcançou R$ 15,6 bilhões, avanço de 12,6%. Entre os bancos públicos, o Banco do Brasil somou R$ 20,7 bilhões, resultado impactado pela inadimplência do setor agropecuário, e a Caixa Econômica Federal registrou lucro de R$ 16 bilhões, crescimento de 18,7%.

 

Já os resultados do primeiro trimestre de 2026 reforçam essa tendência. Juntos, os cinco maiores bancos obtiveram lucro de R$ 29,8 bilhões. Apesar da queda média de 11,1% em comparação com o mesmo período do ano anterior, todas as instituições seguiram registrando ganhos bilionários. No mesmo período, o Nubank alcançou lucro de R$ 4,8 bilhões, alta de 54,9%, superando os resultados de Santander, Banco do Brasil e Caixa. Para a economista, os números demonstram que a busca por rentabilidade continua sendo o principal motor das estratégias adotadas pelo setor, mesmo quando os resultados permanecem em patamares extremamente elevados.

 

A expansão dos lucros ocorre paralelamente ao enxugamento das estruturas. Entre 2013 e 2025, quase 100 mil postos de trabalho bancário foram eliminados no país. Apenas em 2025, os grandes bancos fecharam 12.815 vagas e, no primeiro trimestre deste ano, outras 3.934 foram encerradas. O mesmo movimento atinge a rede de atendimento. Somente nos três primeiros meses de 2026, foram fechadas 429 agências, reduzindo para 10.740 o número de unidades dos cinco maiores bancos. Ao mesmo tempo, as operações de crédito seguem crescendo e movimentando volumes cada vez maiores de recursos, demonstrando que a redução de estruturas físicas não decorre de dificuldades financeiras, mas de uma opção de gestão voltada para aumentar a rentabilidade.

 

A digitalização aparece como um dos principais instrumentos desse processo. O Nubank encerrou o período com índice de eficiência de 17,6%, o melhor entre as instituições analisadas, enquanto o Banco do Brasil registrou 28%, o melhor resultado entre os bancos tradicionais. Para o mercado financeiro, números como esses representam operações mais baratas e lucrativas. Para os bancários e população, porém, a realidade tem sido outra. A substituição do atendimento presencial por canais digitais, acompanhada do fechamento de agências e da redução de equipes, tem ampliado a sobrecarga de trabalho e dificultado o acesso aos serviços para idosos, pessoas analfabetas digitais e moradores de municípios que perderam unidades bancárias.

 

Durante a mesa, a diretora Executiva do Sindicato dos Bancários da Bahia, Jussara Maria, alertou para os riscos dessa lógica, especialmente nos bancos públicos. Segundo ela, instituições como Banco do Brasil e Caixa possuem papel social que não pode ser subordinado exclusivamente aos critérios de lucratividade utilizados pelos bancos privados. O fechamento de agências em cidades consideradas menos rentáveis compromete o acesso da população a serviços essenciais e enfraquece a função pública dessas instituições. “Banco público não foi feito para dar lucro. Existe para atender a população, fomentar o desenvolvimento e garantir inclusão financeira”, defendeu.

 

A avaliação apresentada na conferência reforça uma das principais preocupações da categoria para a campanha salarial deste ano. Para os bancários, os balanços demonstram que não há justificativa econômica para redução de direitos, diminuição dos quadros de pessoal ou intensificação das metas. Mesmo quando registram oscilações nos resultados, os bancos continuam acumulando lucros bilionários e ampliando seus negócios. Diante desse cenário, a categoria defende que parte dessa riqueza seja revertida em mais contratações, melhores condições de trabalho, fortalecimento da rede de atendimento e valorização dos trabalhadores que produzem os resultados celebrados pelas instituições financeiras.